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Ciclistas esperam que o Governo do Distrito Federal construa 116 quilômetros ainda este ano. ONG Rodas da Paz diz que para dois terços dos 400 mil ciclistas ... Import.flv (8.0 MB)
URBANISMO
Patrimônio ameaçado
A
quantidade de veículos que circulam pela área tombada já compromete a
qualidade de vida dos brasilienses. A frota é tão grande que seria
possível colocar todos os moradores da capital dentro dos 1,9 milhões
de carros
Helena Mader
Da Equipe do Correio
| Marcelo Ferreira/CB/2.6.06 |
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Para os órgãos de trânsito, o tombamento
da cidade atrapalha a realização de obras que solucionem o problema dos
engarrafamentos, como os que ocorrem no eixo monumental
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A
frota de carros do Distrito Federal é tão grande que seria possível
colocar toda a população da capital federal dentro dos veículos que
circulam pelas vias da cidade. Brasília é a recordista brasileira no
número de carros por habitante. Existe um automóvel para cada 2,4
pessoas. O excesso de veículos nas ruas deixa o trânsito cada vez mais
caótico e já compromete a qualidade de vida dos brasilienses e a
preservação do patrimônio cultural da humanidade.
Na Esplanada dos Ministérios, milhares de carros estacionados
irregularmente atrapalham a visão do principal cartão postal da cidade.
Ao lado da Catedral, o trânsito praticamente pára nas horas de rush.
Circular pela área central ou encontrar uma vaga de estacionamento são
um verdadeiro teste de paciência. Nas ruas largas e arborizadas de
Brasília, planejadas para terem um trânsito organizado, o fluxo de
veículos está cada vez mais lento.
Como Brasília é tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade,
qualquer alteração no Plano Piloto depende de autorização do governo
federal. E o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan) é rigoroso na aprovação de projetos que alterem as escalas de
urbanização da cidade. Para ampliar e duplicar vias, construir
cruzamentos ou viadutos na área tombada, os órgãos de trânsito precisam
submeter os planos ao crivo do Iphan, que proíbe a maioria das mudanças
mais drásticas no sistema viário de Brasília.
Especialistas também defendem a preservação da área tombada e são
contra alterações nas rodovias e vias urbanas da capital federal. Como
a frota de carros cresce mais de 6% ao ano, a ampliação das vias
poderia estimular ainda mais o crescimento do número de veículos em
circulação e piorar a situação a longo prazo. Atualmente, existem cerca
de 840 mil carros em circulação nas vias do Distrito Federal. Em São
Paulo, onde o trânsito é caótico, a média é de um veículo para cada
três habitantes. Na cidade do Rio de Janeiro, 1,9 milhão de veículos
circulam pelas vias da cidade.
O especialista em engenharia viária e professor da Universidade de
Brasília Paulo César Marques acredita que a solução não é aumentar o
espaço destinado aos carros, mas sim encontrar uma maneira de tirá-los
da rua. “É claro que os órgãos de trânsito às vezes precisam fazer
intervenções como a construção de um retorno ou a melhoria no raio de
uma curva. Mas é complicado fazer grandes reformas no sistema viário
porque isso certamente vai gerar uma demanda ainda maior”, explica
Paulo César. A forma de reduzir o fluxo de veículos nas ruas da capital
federal, segundo o especialista, é investir em melhorias no sistema de
transporte público. “Essa é mais uma forma de preservar a área tombada.
Se o sistema funcionar bem, com a integração do metrô com os ônibus,
até a classe média vai deixar os carros em casa”, garante.
Mais faixas
Para os órgãos de trânsito, o tombamento de Brasília atrapalha a
realização de obras que solucionem o problema dos engarrafamentos na
cidade. O diretor de Segurança do Departamento de Trânsito, Antônio
Bonfim, atual diretor-geral do órgão, explica que a malha viária
precisa acompanhar o crescimento da frota. “Já fizemos propostas para
colocar mais uma faixa nos eixinhos e construir estacionamentos atrás
das quadras comerciais, mas os projetos sempre são barrados por causa
das áreas verdes. Todos os dias, 200 novos carros entram em circulação
no Distrito Federal. É preciso fazer alguma coisa para melhorar o fluxo
de veículos”, explica Bonfim. Mas o diretor do Detran também defende
outras medidas para solucionar o caos no trânsito. “Temos que
desenvolver o transporte público e construir estacionamentos
subterrâneos”, lembra Antônio Bonfim.
O projeto de construção do viaduto da Rodoferroviária, que melhorou
significativamente o trânsito dos motoristas a caminho da via
Estrutural, precisou ser reformulado 13 vezes para se adequar às normas
do tombamento de Brasília. O viaduto do Catetinho também foi adaptado
para não atrapalhar a visibilidade da primeira residência de Juscelino
Kubitschek.
O superintendente do Iphan, Alfredo Gastal, explica que o
tombamento é o principal instrumento para preservar a cidade e não pode
ser desrespeitado. “Brasília foi muito bem planejada e a solução para
todos esses problemas está no plano. O projeto original previa
estacionamentos subterrâneos no Setor Comercial Sul, mas eles nunca
foram construídos. De vez em quando aparecem no Iphan alguns projetos
mirabolantes, como o de transformar a Rodoviária do Plano Piloto em um
grande estacionamento. É um absurdo porque a Rodoviária é tombada e não
pode ser descaracterizada dessa maneira”, justifica Gastal.
Nem mesmo os bairros mais novos de Brasília escapam do trânsito
caótico. A lentidão do fluxo de veículos no Setor Sudoeste, que também
está na área tombada, é a maior reclamação da população do bairro.
Criado há 15 anos para abrigar a classe média do Distrito Federal, o
Sudoeste tem hoje 40 mil moradores.
Insuficientes
A dificuldade de circular pelas vias comerciais e residenciais,
principalmente nos horários de pico, já é motivo de dor de cabeça para
os habitantes do bairro. Na entrada de algumas quadras, os carros ficam
aglomerados e o trânsito pára. Nos balões e nas saídas das áreas
residenciais, os motoristas têm dificuldade para alcançar a avenida
principal e o Eixo Monumental. Os estacionamentos dos comércios são
insuficientes para abrigar um número cada vez maior de veículos.
Os horários de entrada e saída de escolas são os mais caóticos. O
Detran já apresentou um projeto para ampliar as vias W4 e W5 sul, onde
está concentrada a maioria dos colégios. Mas a alteração foi barrada.
Para o diretor de Policiamento e Fiscalização do Detran, Silvaim
Fonseca, o tombamento da cidade é um agravante dos problemas de
trânsito cada vez mais graves na cidade. “O Iphan proibiu até a
abertura de mais portões no Parque da Cidade, o que ajudaria a melhorar
a fluidez do trânsito. Os moradores de Brasília vêem o carro como
status, como instrumento de poder. Por isso a frota cresce tanto.
Precisamos estudar soluções para esses problemas”, garante Fonseca.
A Unesco reconheceu a importância de Brasília em 1987 e incluiu a
cidade na lista do comitê mundial da entidade. No mesmo ano, o Governo
do Distrito Federal baixou um decreto para regulamentar o tombamento.
Em 1990, o governo federal também sancionou uma lei para definir as
escalas urbanísticas do tombamento: monumental, residencial, gregária e
bucólica. A área de preservação de Brasília tem cerca de 112 km² e é
delimitada a leste pela orla do lago Paranoá, a oeste pela Estrada
Parque Indústria e Abastecimento (Epia), ao sul pelo córrego Vicente
Pires e ao norte pelo córrego Bananal. A justificativa para o
tombamento é que a cidade representa uma obra arquitetônica que marcou
a história. Depois da inclusão de Brasília no Patrimônio Mundial, a
capital federal passou a um seleto grupo ao qual pertencem cidades
famosas como Florença, Veneza, Cuzco, Quito, Havana, Roma e o Vaticano.
No Brasil, outras cidades como Ouro Preto e Olinda também são tombadas
pela Unesco.
Brasília
foi muito bem planejada e a solução para todos esses problemas está no
plano. O projeto original previa estacionamentos subterrâneos no Setor
Comercial Sul, mas eles nunca foram construídos  |
Alfredo Gastal
Superintendente do Iphan
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