Em Afuá, pedal é tecnologia
No município da Ilha de Marajó, onde automóveis não circulam, o bicitáxi ganha as ruas e vira atração
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Cleide Silva
ENVIADA ESPECIAL
AFUÁ
Uma cidade no oeste da Ilha de Marajó, no Pará, reinventou o conceito
do automóvel. "Carros" com 4 rodas, volante, capacidade para 4
passageiros, mas sem motor, circulam pelas estreitas ruas de Afuá,
município com 35 mil habitantes onde veículos motorizados são proibidos
por lei.
Bicicletas e triciclos são os meios de transporte mais comuns. Já os
mais sofisticados são os bicitáxis, invenção local surgida da junção de
duas bicicletas, unidas por estrutura de aço que leva bancos, capô,
painéis e sistema para CD players e aparelhos de DVD que funcionam com
baterias automotivas.
Às margens do Rio Afuá, afluente do Amazonas, a cidade foi construída
sobre palafitas para escapar das cheias. As ruas são pontes de madeira
suspensas. Para evitar sua deterioração, carros e motos não podem
entrar na ilha, que fica a 254 quilômetros de Belém e a 100 quilômetros
de Macapá, de onde partem diariamente barcos para Afuá. A viagem leva
no mínimo duas horas e meia, dependendo da maré.
Os moradores chamam os bicitáxis de carros. A primeira versão foi
lançada há 11 anos por Raimundo do Socorro Souza Gonçalves, o Sarito,
que queria uma alternativa maior e mais confortável à bicicleta para
passear com a família.
O veículo, com 3 rodas e capacidade para 4 passageiros, chamou a
atenção e muitos moradores pediam para dar uma volta. Sarito passou a
cobrar pelos passeios e batizou o invento de Bicitáxi, denominação
registrada em cartório.
O veículo foi sendo aperfeiçoado e ganhou quatro rodas. Apesar do nome,
não há nenhuma unidade operando como táxi. A maioria é usada para o
transporte dos proprietários e poucos alugam para terceiros.
A frota atual é de cerca de 300 unidades, segundo cálculos da
Prefeitura. Dirigidos por crianças e adultos, podem atingir velocidade
de até 25 km/h, dependendo do fôlego de quem pedala, responsabilidade
do condutor e do carona.
Ter um bicitáxi é sonho de consumo da maioria dos afuaenses. Custa de
R$ 1,2 mil, o modelo mais popular, a R$ 6 mil, versão com opcionais
como aparelho de DVD e banco reclinável. A moda é personalizar o
bicitáxi e colocar carroceria com desenho exclusivo, luzes de néon e
potentes caixas de som, a exemplo do que ocorre com o chamado "tuning",
ou personalização do carro.
A cidade tem três oficinas especializadas na montagem dos veículos. A
de Leoniuro Paulo Martins de Ataide, onde foi construído o primeiro
bicitáxi, trabalha com encomendas. Ele leva em média três semanas para
produzir a carroceria com chapas de aço e vergalhões. As rodas são de
bicicleta ou motos e os aros reforçados com ferro.
O volante é de carro, adaptado a uma haste de ferro conectada a pedais
da estrutura da bicicleta do lado esquerdo. Modelos mais novos têm
sistema de mola e catracas que deixa o volante mais macio. "É a nossa
direção hidráulica", compara Marinaldo Rodrigues da Silva, dono de um
bicitáxi há dois anos. "Nunca dirigi um automóvel, mas tenho vontade",
afirma ele, que tem 31 anos e é funcionário público. Silva gastou R$
2,5 mil no seu bicitáxi, sendo R$ 800 com mão-de-obra.
Éder Jean, de 28 anos, dono de uma oficina de bicicletas, já teve seis
bicitáxis. O atual foi desenhado por ele mesmo e batizado de Bat Móvel.
A lataria é verde com grafites coloridos. É equipado com caixa de som,
dois alto-falantes, néon, retrovisores e painel que controla luzes de
pisca e lanternas. O estofamento dos bancos, encomendado em Macapá, tem
fotos da filha Evellin Chandra, de 5 anos.
O custo beira R$ 3,7 mil. Para recuperar parte do investimento, Jean o
aluga por R$ 10 a hora. As cinco unidades que teve foram vendidas com
facilidade, pois o mercado de usados é disputado. Ele nunca testou um
automóvel, mas não tem interesse. "É muito arriscado."
O modelo mais luxuoso de Afuá, com linhas de um jipe esportivo,
pertence a Elisomar Gemaque de Castro, que levou dois anos para juntar
todos os itens instalados no veículo. O volante e o câmbio são de
Fusca, o painel com luzes de pisca e faróis de milha é de Tempra, pneus
e retrovisores são de motos. Os bancos em couro reclináveis, de um
Mille, foram reduzidos de tamanho.
O veículo é equipado com DVD, onde Castro vê as bandas de sua
preferência. Tem caixas de som, alto-falantes, santantônio e estribos
para compor o visual de um jipe 4x4. "Aqui ele é um Mercedes-Benz da
cidade grande." Castro copiou o design de um jipe de brinquedo do
sobrinho. A parte frontal foi feita em chapas fundidas e pintura
automotiva. O freio é de mão e o câmbio tem três marchas.
O veículo é avaliado em R$ 6 mil, dinheiro que daria para comprar uma
casa no centro ou duas no bairro Capim Marinho, o mais populoso da
cidade. "Já me ofereceram esse valor, mas não vendo por preço nenhum",
declara Castro, que tem 30 anos e faz trabalhos de computação e
gravação de CD.
"O único lazer que tenho aos sábados e domingos é o carro", diz Helbson
Monteiro Pantoja, de 22 anos, que costuma levar a esposa Vânia e o
filho Wesley Davi, de um ano, para passear. O desenho do "carro" é uma
homenagem ao grupo de rap Racionais MC's, de quem é fã. Levou sete
meses para ser montado e tem luzes de néon, buzina e banco inteiriço. O
tamanho dos bicitáxis varia de 80 centímetros a 1,20 metro de largura
por até 2 metros de comprimento. As cidades vizinhas de Anajás e Chaves
também não têm automóveis, mas é permitida a circulação de motos. "Só
nós temos os bicitáxis", diz o prefeito Odimar Vanderley Salomão.
Texto de
O Estado de São Paulo.