Paulo Cesar Marques
RAFAEL BALDO
Da Assessoria de Comunicação
| Roberto Fleury/UnB Agência |
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Todo ano, no mês de setembro, o Conselho
Nacional de Trânsito lança uma campanha para conscientizar
os motoristas e pedestres do uso apropriado do espaço viário:
a Semana Nacional de Trânsito. O tema de 2006, Você
e a moto: uma união feliz,
quer colocar em discussão os limites e as responsabilidades
dos motociclistas e de todos os motoristas. Porém, para
o professor da Pós-graduação em Transportes
da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Cesar Marques,
de pouco adianta apenas uma semana de campanha: “Não
digo que, com isso, não deveria ter sido feita, mas não
há um caráter permanente. A conscientização
do trânsito deve ser renovada e permanente para dar resultado”.
Marques acredita que a cultura de usar um veículo
sem pensar nos outros ocupantes da via deve ser modificada para
o comportamento no trânsito realmente mudar. “O chamado
direito à velocidade é excludente. Dirigir a 120
km/h impede outras pessoas de usar com segurança uma via.
Discutir isso não faz parte do nosso dia-a-dia”,
comenta. Algumas medidas propostas pelo professor são o
aumento do número de passagens subterrâneas sob o
Eixão e a discussão com a comunidade da redução
da velocidade desta via para 60 km/h.
Apesar de saber que é difícil
fazer valer essas medidas, o especialista acredita que a discussão
e análise dessas propostas são necessárias.
A última vez que isso aconteceu, o resultado foi a campanha
de respeito à faixa de pedestres e sua real aplicação.
“Houve um envolvimento do poder público, da sociedade
e da imprensa para a paz no trânsito, que na época
chocava a comunidade brasiliense”, explica. Confira a seguir
os principais trechos da entrevista à UnB Agência:
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UnB AGÊNCIA – É viável algum tipo de política
pública específica para motocicletas?
MARQUES – Não só é viável como é necessário. A participação
da motocicleta na frota brasileira aumentou significativamente nos últimos
anos. Não estamos preparados para a circulação em cima de duas rodas.
O Código de Trânsito tem uma cara muito forte de veículo de, pelo menos,
quatro rodas, inclusive com o veto do artigo 56, que proibia a circulação
das motos entre as faixas da rua. E a justificativa do veto era que a
moto foi feita para isso mesmo, para ter “vantagens” de circulação
no trânsito. Então, se criou essa cultura de que a moto tem essas facilidades
e não está sujeita às mesmas regras de segurança, o que é um erro. A moto
desenvolve a mesma velocidade de um automóvel, com a diferença de ser
menos visível do que um carro e ser muito mais instável por ser em duas
rodas. O sistema atual de trânsito não é muito preparado para a boa circulação
de motos.
| Roberto Fleury/UnB Agência |
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UnB AGÊNCIA – O que pode ser feito para que isso
ocorra?
MARQUES – Tanto a fiscalização com relação a questões
de segurança das motocicletas quanto a conscientização de motociclistas
e ciclistas neste sentido são fundamentais. Mas os motoristas e pedestres
também precisam ficar atentos. O trânsito é de todos. Porém, acredito
que exista um fenômeno interessante nisso tudo: o motofrete ou motoboy.
Não pensamos, ou propositalmente ignoramos, o risco que estamos contratando
quando pedimos uma pizza e esperamos que ela chegue rápido. Impomos um
comportamento de risco para o motociclista que vai trazer a encomenda.
Porque se não for burlando as leis de trânsito, ele não vai conseguir
cumprir a tempo o pedido, nem completar a cota diária esperada pelo patrão.
Neste caso, toda a sociedade é cúmplice. Por isso, é necessária uma política
pública que conscientize o público.
UnB AGÊNCIA – Em grandes cidades, como São
Paulo, é possível que os motoqueiros não trafeguem entre as faixas sem
que isso prejudique o trânsito e aumente os congestionamentos?
MARQUES – Isso não aumentaria o tráfego. O comportamento
padrão nas grandes cidades do mundo é o motociclista andar na fila, onde
estão os carros. Quando o sinal fechar, os carros pararem, a moto andando
devagar pode se posicionar mais próximo à linha de parada. Inclusive algumas
cidades já reservam um local especial em semáforos, à frente da faixa
de carros e anterior à faixa de pedestres, exclusivo para as motocicletas.
Quando o sinal ficar verde, mais do que sair na frente dos automóveis,
o motociclista é visto por eles, aumentando a segurança no trânsito. Mais
do que a implantação desse sistema ou de faixas exclusivas para motos,
o que vale é o respeito entre os cidadãos que usam o trânsito. Todas as
pessoas têm o direito e devem usar esse espaço de forma cooperativa.
UnB AGÊNCIA – Há muito tempo acontecem campanhas
para a conscientização no trânsito, mas parece que elas não são
tão eficazes quanto se espera. Por quê?
MARQUES – Você se lembra do tema da Semana Nacional
de Trânsito do ano passado? Muitos não lembram. Existir a campanha é uma
coisa importante, mas ela deve ser permanente. Não basta só ter a campanha
neste período. A campanha do ano passado foi muito bem feita, que dizia
“no trânsito somos todos pedestres”, mas a divulgação acabou
juntamente com a semana. Não digo que não deveria ter sido feita, mas
não há um caráter permanente. No acidente que matou cinco jovens no Rio
de Janeiro, voltou à tona a discussão sobre álcool e direção. Provavelmente,
as vítimas não estavam dirigindo há dois anos atrás e não foram conscientizadas
de alguma campanha sobre o tema. A conscientização do trânsito deve ser
renovada e permanente para dar resultado. Outro fator é, mesmo sabendo
que é errado beber e dirigir ou correr, continuam fazendo. Não falta conhecimento,
mas sensibilização. Estou convencido que a abordagem de colocar as pessoas
nos lugares das vítimas é um bom método de mostrar como acontecem os acidentes
e como cooperar na segurança do trânsito. O chamado direito à velocidade
é excludente. Dirigir a 120 km/h impede outras pessoas de usar com segurança
uma via. Discutir isso não faz parte do nosso dia-a-dia.
| Roberto Fleury/UnB Agência |
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UnB AGÊNCIA – Segundo um levantamento da Rede Sarah,
as motocicletas são responsáveis por quase 57,6% das internações nas vias
urbanas. De quem é a culpa: do meio de transporte, das vias ou do motorista?
MARQUES – É difícil culpar um só fator. De qualquer forma,
esse dado não é proporcional a toda a frota devido à própria fragilidade
da moto. O usuário não está protegido por uma carcaça, precisa manter
o equilíbrio constante da motocicleta e é mais difícil de sair ileso em
uma manobra brusca por uma perturbação no trânsito, como buracos e choques
com outros veículos.
UnB AGÊNCIA – Segundo o Departamento Nacional de
Trânsito (Denatran), a faixa de idade mais envolvida em acidentes
é entre 15 e 24 anos. Como a fiscalização de trânsito pode diminuir essa
estatística?
MARQUES – Existe, claro, uma grande participação de jovens
circulando nos meios de transporte, e não necessariamente na posição de
condutor. São os estudantes, o pessoal que sai para a balada ou fazer
compras. Outra característica dessa faixa é a impulsividade. Os jovens
são mais afoitos e podem aumentar as chances de acidente dependendo da
maneira que se comportam na condução de um veículo e da exposição ao consumo
de drogas. De novo, é preciso trabalhar com a conscientização e com a
clareza de atingir o público-alvo certo com a mensagem certa, pois o tiro
pode sair pela culatra. As restrições podem virar um estímulo ao comportamento
de risco.
UnB AGÊNCIA – Brasília é reconhecida por aplicar
da maneira correta o respeito à faixa de pedestres. Por que funciona aqui
e em outros estados não?
MARQUES – Costumamos dizer que nada no tráfego funciona
se não estiver baseada no tripé engenharia, educação e fiscalização. As
chances de sucesso aumentam muito se essas áreas estiverem bem coordenadas.
O caso da faixa de pedestres no Distrito Federal é um bom exemplo disso.
Houve um envolvimento do poder público, da sociedade e da imprensa para
a paz no trânsito. O Departamento de Trânsito do DF (Detran) não
só desenhou a campanha, mas planejou a implantação de faixas em locais
estratégicos com sinalização adequada e estudos das áreas. A fiscalização
funcionou no começo e depois a própria sociedade ajudou a manter esse
comportamento. Mudou-se um valor cultural na região e só assim o respeito
à faixa de pedestre fez-se valer.
| Roberto Fleury/UnB Agência |
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UnB AGÊNCIA – Quais são as vias de transporte mais
críticas do Distrito Federal?
MARQUES – Em termos de comportamento do usuário, não
é muito adequado fazer essa distinção. A atenção e o respeito às regras
devem ser as mesmas em qualquer lugar. Em relação aos aspectos de segurança,
os números do Detran e Departamento de Estradas de Rodagem (DER) mostram
que algo de errado acontece na EPIA e no Eixão. As condições para os pedestres
atravessarem o Eixão são muito precárias. As passagens subterrâneas são
distantes entre si em 700 metros, sendo que o Código de Trânsito obriga
os pedestres a usarem os locais corretos de travessia quando essas facilidades
estiverem a até 50 metros de distância. Fora isso, eles têm o direito
de usar. Além de distantes entre si, as passagens são sujas, escuras,
pouco povoadas e não possuem a segurança necessária. Mesmo assim, um levantamento
do DER mostra que 80% dos transeuntes do Eixo Rodoviário (Eixão)
usam essa facilidade, andando mais e se submetendo à insegurança de alguns
locais. É preciso aumentar o número de passagens subterrâneas no Eixão
e adequar todas para o uso correto e seguro dos pedestres. Penso que a
velocidade do Eixão deve ser discutida e diminuída para 60 km/h. Para
cruzar toda a via a 80 km/h, leva-se cerca de 11 minutos. Com a diminuição,
o tempo aumenta cerca de quatro minutos. Ninguém vai morrer por isso,
mas muita gente vai deixar de morrer por conta da mudança de velocidade.
UnB AGÊNCIA – Alguns candidatos ao governo do Distrito
Federal prometem a implantação de barreiras eletrônicas e a permanência
dos radares eletrônicos. Até que ponto essa medida é eficiente para evitar
acidentes e ensinar o motorista?
MARQUES – São coisas diferentes. A barreira eletrônica
é um dispositivo para corrigir a velocidade naquele ponto, seja por uma
travessia de pedestres ou uma curva acentuada. O pardal não tem essa função,
ele existe para fiscalizar a velocidade na extensão de toda a via. O radar
nem precisa ser visível, o que precisa ser visível é a placa indicando
a velocidade correta. Quando você não sabe onde fica, você esquece de
ficar procurando os trechos em que deve voltar à velocidade permitida,
respeita o limite da via e presta mais atenção na sinalização existente.
A partir desse momento, a preocupação passa em respeitar a vida, e não
em levar multa.
UnB AGÊNCIA – Os dados do Denatran mostram um crescimento
significativo da frota de carros no DF. De 1990 a 2003, a frota dobrou,
passando de 373.580 para 732.874. O que precisa ser feito além da duplicação
de vias?
MARQUES – Acredito que não é fazer alguma coisa “além
disso”, e sim “em vez disso”. É preciso quebrar essa
dependência de se usar o carro para ir a algum lugar e investir na infra-estrutura
de transporte público. Entre 1990 e 2003, o Estado se retirou da coordenação
do transporte público urbano e submetendo essa demanda às leis e empresas
do mercado privado. Sem diretrizes institucionais definidas pela União
e planejamento, surgiram os transportes clandestinos, a falta de gestão
das linhas de ônibus, entre outros. Para não depender disso, muitas pessoas
compraram carros e a frota foi aumentando. Essa dependência com o carro
acabou sendo estimulada pela ampliação das vias ao invés do investimento
no transporte público. Uma política pública efetiva deveria inverter essa
lógica.
UnB AGÊNCIA – Alguns projetos de lei no Congresso
Nacional querem aumentar o número de pontos de infração na carteira de
motorista. O que o senhor pensa dessa medida?
MARQUES – Três infrações gravíssimas já suspendem a carteira
do motorista. Sete infrações leves também fazem o mesmo. Portanto, os
20 pontos atuais são adequados. O que ainda não temos disseminados é a
computação dessas infrações, pois não há fiscalização eficiente. Se eu
pego um carro da universidade (uma pessoa jurídica) e cometo infrações,
ninguém vai ser punido por isso. E se eu tiver dinheiro para pagar as
multas, posso ficar assim o ano inteiro. Antes de pensar em rever o número
de pontos, é preciso começar a aplicar a norma corretamente.
Fonte: Assessoria de Comunicação - UnB
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PERFIL
Paulo Cesar Marques é doutor em Estudos
de Transportes pela Universidade College de London (Grã-Bretanha) e mestre
em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). É professor do Programa de Pós-graduação em Transportes da Universidade
de Brasília (UnB). |