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Blog EntryDe bicicleta na cidadeSep 26, '05 10:36 AM
by Sergio for everyone


De bike pela city

A topografia linear de Brasília é um convite irrecusável aos ciclistas, que usam e abusam dos generosos espaços que a cidade oferece

Rubens Araújo
Fonte: Jornal da Comunidade
 

Brasília tem uma relação de amor complicada com as bicicletas. Plana e repleta de avenidas largas, a cidade convida ciclistas para explorarem suas veias e vias. Mas, como uma namorada caprichosa, zomba dos apaixonados ao não oferecer ciclovias que garantiriam maior segurança para os que gostam de pedalar. Ainda assim, é visível o crescimento de quem adotou aquele tradicional veículo para participar de competições, ir para o trabalho, apreciar a paisagem ou simplesmente sentir o vento no rosto nas horas de lazer. Não faltam viciados nessa “cachaça”. Um interesse que a tecnologia e o comércio acompanham cada vez mais de perto.

Nos últimos anos, pedestres e motoristas que atravessam o Parque da Cidade, uma das poucas áreas de Brasília em que os ciclistas têm total segurança para transitar, viram um incremento impressionante do número de bicicletas. Seja de dia ou de noite. Prova cabal disso é o sucesso de grupos organizados que reúnem amantes de bikes (expressão usada para designar o veículo) como o Pedal Noturno-DF, criado em fevereiro deste ano e que em apenas oito meses conseguiu reunir 793 associados.

O Pedal Noturno pode ser visto como um microcosmo do relacionamento saudável que os brasilienses têm com a bicicleta. E também um sinal dos tempos das mudanças naquela relação. “A diversidade é imensa, participam pessoas de 13 a 69 anos. Tem famílias inteiras que pedalam juntos. Tem empresário, advogado, dentista, funcionário público, cabeleireiro, todos unidos como uma grande família”, contabiliza o empresário Walter Graneiro, 50 anos, um dos criadores do site www.pedalnoturno.com.br , que deu início a esse estrondoso e feliz caso de amor.

Grupos em média de 40 a 50 pessoas do Pedal Noturno se reúnem no Parque da Cidade para declarar sua paixão à bicicleta em percursos variados que se estendem por até 60 km. Um jeito novo e moderno de pedalar, já que no tempo das saudosas e minimalistas Monarks e Caloi, o veículo combinava mais com passeios à luz do sol. “Essa opção noturna tem a ver com o tempo das pessoas, que trabalham durante o dia. Além do mais, à noite é mais agradável e o trânsito é mais tranqüilo”, realça Graneiro.

Pedaladas testemunhadas pela lua são sintomas iluminados de que Brasília, como acontecem com capitais como Paris, Roma e Pequim, está se transformando em uma cidade aberta e generosa para os ciclistas. “Brasília é a melhor cidade para se pedalar do Brasil”, ataca de superlativo o administrador Carlos Alberto Dorneles Jr., 28 anos, o gordinho. “Aqui você tem ótimos lugares e trilhas para se ir de bicicleta”, argumenta este fã de mountain bike, categoria em que os praticantes andam em lugares íngremes e de difícil acesso.

Os ciclistas não poupam argumentos e elogios. “Brasília é a única cidade grande do país que permite que você pegue a sua bicicleta e saia do centro da cidade para pedalar”, exemplifica orgulhoso o empresário Marcelo Fernandes Torres, 41. O representante brasileiro no campeonato mundial de tiro em Milão (1988) e Atlanta (1999) foi um dos milhares que se rendeu às delícias de se pedalar na capital do Brasil e ao espírito despojado dessa prática: “Eu todos os esportes que fiz em minha vida sempre tive pretensões de ganhar prêmios. O ciclismo, porém, transcende isso”.

“Eu gosto muito de Brasília para pedalar. As pistas são bem largas, parece um tapete. Além disso, o relevo da cidade é bom e a paisagem é bonita”, justifica por sua vez a secretária bilingüe Cecília de Paula Torres Parente. A ciclista fez spinning (bicicleta ergométrica) por um longo período, mas descobriu com o tempo que pedalar era mais prazeroso. Trocou a academia pelas ruas da capital e pelas trilhas do Entorno do DF. “Você fica olhando a natureza e refletindo. A endorfina te dá a sensação de prazer. Isso cura tudo”, explica.

Uma paixão duradoura

Grupos de ciclistas se multiplicam e fazem dos passeios, diurnos ou noturnos, um estilo de vida para lá de saudável
 

A relação de uma cidade com o simpático e milenar veículo de duas rodas é tão intensa e duradoura quanto maior, mais diversa e radical for a população que o utilize. E Brasília, com sua geografia peculiar, é uma cidade que possibilita um uso múltiplo e afetivo da bicicleta. A multiplicação de grupos com fins específicos como o já citado Pedal Noturno, para quem quer pedalar à noite, o Rebas do Cerrado, para quem gosta de fazer trilhas, o Saia no Pedal, só de mulheres, entre outros, revelam um movimento forte e que reforçam cada vez mais o laço da cidade com seus ciclistas.

Por trás desse apertado laço há um sentimento de conforto traduzido na leitura da funcionária pública Marta Cantarino, 40: “As pessoas estão procurando a qualidade de vida e muitos aqui vêem na bicicleta mais um meio para alcançar isso”. É o incremento de uma vida mais saudável sobre duas rodas. Marta Cantarino e seu marido, o advogado Mauro Thompson, trocaram suas motos pelas bicicletas e ainda convocaram para o exercício da nova paixão, os dois filhos, de 14 e seis anos de idade.

Marta e sua família pedalam unidos. Camila, a filha mais velha, já incorporou claramente o espírito: “Gosto de andar de bicicleta. A gente conhece pessoas novas e é bom para o corpo”. Até o caçula entrou na dança: “Ele está começando, mas daqui a um ano, quando ele estiver com sete, já vai para as trilhas leves”, conta a mãe.

Para um outro grupo de apaixonados, a bicicleta é o veículo de transporte ideal. O vendedor Gilson Rodrigues Pereira, 40 anos, sai de casa em Sobradinho e pedala 33 km para chegar no trabalho, na Asa Sul. Exercício que não está relacionada à contenção de despesa: “Não faço isso para economizar gasolina. É porque gosto mesmo”. A única economia a que se refere é mesmo a de tempo: garante que é mais rápido se locomover de bicicleta do que de ônibus.

Gilson contabiliza os quilômetros consumidos e registrados no cataye (uma espécie de odômetro): são 13 mil km rodados por ano nessa brincadeira. Um esforço em cima do selim que, segundo ele, está longe de ser sacrificante: “Para mim é uma terapia, uma forma de sentir liberdade”. Essa relação é definida de outra forma pelo empresário Marcelo Torres: “É uma cachaça, um vício”. E que pode gerar dependência, de acordo com o exemplo do administrador Carlos Dorneles: “Quando tive uma infecção lombar e passei 20 dias sem andar de bicicleta, fiquei agoniado. Para diminuir a agonia, escoltava de carro os amigos que andavam de bike”.

Bicicleta gera dependência e cria tribos diferenciadas. Cada uma escolhe o estilo ou a categoria de bike que mais lhe apetece. A mais nova e estilosa delas é sem dúvida a dos low riders. Wesley Alvarenga, o Shell, proprietário da Catracas, loja misto de camisetaria e bicicletaria, e um amante daquela escola, explica que há ali uma filosofia a ser seguida: “Low rider é um estilo de vida, que é muito ligado ao hip hop e tem a ver com o gosto por bicicletas personalizadas, que pareçam com o dono e revelem seu jeito de ser”.

O low rider usa uma low bike, que são bicicletas com tamanhos, guidons e acessórios diferenciados, a exemplo dos canos de escapamentos e selim banana. Podem ser encontradas prontas ou montadas, de acordo com o gosto e o ego do cliente. O produto final é um veículo vistoso e colorido, uma verdadeira festa para quem gosta de aparecer. Mas, Shell, que monta algumas delas em sua oficina em Taguatinga, adianta que o verdadeiro low rider não gosta de exibir: “Aparecem algumas pessoas na loja interessadas em ter as bicicletas só para tirar onda. Mas, esse não é o espírito da coisa”.

O diferencial das low bike é um reflexo da extensão do amor dos brasilienses pelas chamadas “camelos”. Sentimento percebido rapidamente pela indústria. As bicicletas nacionais e importadas ganharam na última década recursos tecnológicos e apetrechos que seduzem e descapitalizam os consumidores. São amortecedores com travas, freios a discos, peças em carbono, multiplicação de marchas que fazem a velha e tradicional Caloi 10 das décadas de 70/80 parecer uma peça de museu.

Quanto mais moderna e leve mais caro é aquele objeto de desejo. Tudo depende do bolso e do gosto de cada um. “Vendo bikes de 200 a 4 mil reais. Mas sei que existem algumas de até 25 mil reais”, informa Caio Neves, dono de uma das lojas mais conhecidas da cidade. Difícil vai ser escapar do cerco, segundo ele: “A bicicleta é um produto que tem um futuro promissor. Daqui a um tempo, ainda que longo, ele será um veículo muito mais utilizado do que é hoje”.

Trânsito, um inimigo

Brasília não se organizou para corresponder à paixão que os seus habitantes têm por suas bicicletas. Se o relevo e a geografia da cidade ajudam, o mesmo não se pode dizer do planejamento viário. O exemplo mais citado para justificar esta afirmação é a falta de ciclovias. E aí vem a nota dissonante: esse despreparo contribui para o aumento de acidentes com ciclistas que resultaram em mortes. O Detran-DF registrou 28 vítimas fatais no primeiro semestre de 2004. No mesmo período de 2005, foram 43, um aumento de 53%.

Os ciclistas costumam lamentar a falta de seguranças e de mais lugares apropriados para o “pedal”, como apelidaram os passeios que fazem de bicicleta. “É uma pena que para pedalar com segurança Brasília só tenha o Parque da Cidade. O que falta mesmo são ciclovias”, reclama o administrador Carlos Dorneles. O empresário Walter Graneiro emenda: “Falta condições viárias, sinalização e respeito mútuo. Existem também ciclistas que atropelam motoristas e não somente o inverso”.

Por falta de segurança, respeito e ciclovias, o trânsito da cidade torna-se muitas vezes um inferno para os ciclistas. E não faltam vilões. “Muitos não respeitam a gente, principalmente os motoristas de ônibus e vans”, aponta Cecília de Paula Valente. O empresário Marcelo Torres já foi vítima, mas arrefece: “Já fui abalroado por carro e parei no Hospital de Base. Mas, acho que 99% dos motoristas estão mais conscientes. O problema é o 1% restante”.

Os números do Detran-DF não corroboram o que pensa Marcelo. “São muito altas as estatísticas com vítimas fatais envolvendo os ciclistas. E esse ano só fez crescer”, confirma Antônio Bonfim, diretor de segurança de Trânsito. O aumento de 53% de acidentes fatais no primeiro semestre de 2005 em relação ao mesmo período do ano passado preocupa. E a solução para evitar que a situação piore é mais do que conhecida. “O que se tem que fazer é educar motoristas e ciclistas”, repete Bonfim.

Marcelo Granja, diretor da área educacional do Detran, lista os cuidados que o ciclista deve ter: “É preciso que ele ande na mesma direção dos carros e sempre no bordo, mais à direita da via, onde está a faixa contínua branca”. Ele acrescenta ainda que a pessoa deve pedalar com os equipamentos de segurança: capacete, espelho retrovisor sem haste e espelhos reflexivos na parte traseira e dianteira da bicicleta. Os motoristas, por sua vez, devem observar uma distância mínima de um metro e meio do ciclista. “Com menos do que isso, veículos grandes, como ônibus e caminhões, podem jogar os ciclistas fora da via, em função do deslocamento de ar”, alerta.


Bicicleta na Via
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