Correio Braziliense - 10/07/2006
TRÂNSITO// UM CICLISTA MORRE POR SEMANA NO DF. MAS O PROGRAMA
CICLOVIÁRIO ESTÁ PARADO HÁ 15 DIAS. OBRAS NA ÚNICA PISTA QUE ERA
CONSTRUÍDA FORAM INTERROMPIDAS
A rodovia DF-463, em São Sebastião, ainda guarda as marcas de duas
mortes brutais. À beira da estrada, a exposição das bicicletas
retorcidas dos irmãos Valdivino e Lenilson Pereira dos Santos, de 34 e
23 anos, não permitem que o atropelamento dos pedreiros seja esquecido.
Os dois fazem parte da dura estatística de mais de um ciclista morto
por semana no Distrito Federal. Nos quatro primeiros meses deste ano, 18 deles
perderam a vida ao disputar espaço com carros e caminhões nas estradas.
O número já corresponde a mais de um quarto das 64 mortes ocorridas no
último ano, que também apresentou um índice 40% maior do que 2004. Desde 2000, o Departamento de Trânsito do DF
(Detran-DF) já registra 339 ciclistas mortos. O crescimento no número
de vítimas, no entanto, não foi suficiente para acelerar o processo de construção de ciclovias nos pontos mais
perigosos. Das 15 microrredes previstas no Programa Cicloviário do DF,
lançado em março deste ano, apenas uma começou a ser construída, entre
Itapoã e o Paranoá. Mas as obras tocadas pelo Departamento de Estradas
e Rodagem (DER) estão paradas há mais de duas semanas. Para o resto das
ciclovias, não há previsão. “Essa lentidão coloca cada vez mais em
risco as vidas dos ciclistas. Será que o governo vai esperar acontecer
mais uma tragédia para agir?”, dispara o presidente da Organização
Não-governamental Rodas da Paz, Leandro Salim. Segundo o diretor do Departamento de Trânsito do Distrito Federal
(Detran), Antônio Bonfim, as mais recentes campanhas educativas do
órgão são voltadas à proteção de ciclistas, pedestres e motociclistas,
que totalizam mais de 60% dos mortos em acidentes. “No trânsito, o mais
forte é responsável pela segurança do mais fraco. O ciclista, por ser
mais frágil, deve ser respeitado pelo condutor”, pondera Bonfim. Para
ele, o aumento das mortes de ciclistas se deve principalmente à falta
de um espaço específico para eles circularem. “Como não temos ciclovias nem ciclofaixas, o ciclista não tem onde andar com
segurança e se arrisca ao lado dos carros.” Os pedreiros Valdivino e
Lenilson, mortos em janeiro quando iam de bicicleta de São Sebastião
para o trabalho, no Lago Sul, são um exemplo da fragilidade do ciclista
nas ruas e estradas. O meio de transporte representava uma economia de
R$ 3 dos R$ 45 que Valdivino ganhava por dia de serviço. “Com esse
dinheiro, ele comprava o pão, antes de vir para casa”, lembra a viúva
de Valdivino, Ana Rita Pinheiro Neves, 30 anos. Depois do acidente, a
diarista, que também ia pedalando para o trabalho, esvaziou os pneus de
todas as bicicletas de casa para que nenhum dos quatro filhos se
arriscasse pelas ruas. “O Valdivino sempre andava no acostamento, no sentido dos carros, tudo
certinho. Eu tinha medo e pedia para andarmos no sentido contrário,
para ver os carros. Mas ele achava que os motoristas nos veriam e
respeitariam”, conta. Valdivino, os dois irmãos e um amigo foram
atropelados no acostamento. Hoje, Ana Rita, que ganha R$ 200 por mês,
paga R$ 60 em transporte escolar para a filha mais velha Poliana, 12.
Além da dor da perda e da insegurança, a diarista ainda sofre pela
demora no fechamento do caso. O soldado do Exército Carlos André de
Souza, 20 anos, confirmou à polícia que atingiu os pedreiros depois de
uma fechada. “A pessoa que matou meu marido e meu cunhado ainda está
impune. Foi uma morte cruel, eles não tiveram como se defender. Só
quero Justiça”, destaca a viúva.
Lentidão
O descaso na construção das ciclovias pode ser visto no trecho entre o
Itapoã e o Paranoá, previsto para ser entregue até o fim de junho.
Hoje, apenas um dos 6,5km projetados está pavimentado. Mas ainda falta
sinalização, meio-fio, iluminação. Mesmo inacabada, a via já serve como
uma opção para os mais de 4 mil ciclistas que passam, por dia, naquele
trecho da DF-001. “O problema é que, quando acaba esse trecho, a gente
tem que voltar para a beira da pista. A obra está atrasada demais e
agora está tudo parado”, reclama a dona-de-casa Mariza Rocha Lima, 29
anos, moradora do Condomínio Del Lago. Todos os dias ela leva a filha
Ênia, 4, para o colégio, no Paranoá, na garupa da bicicleta. “Há três
meses, quando me mudei para cá, vi um acidente entre um ciclista e um
carro. Ainda tenho muito medo de andar por aqui, mas não tem outro
jeito”, resigna-se. Para o motorista desempregado Ezaqueu Matos dos
Santos, 60 anos, andar pela ciclovia inacabada também não é garantia de segurança. “Carros e motos passam por aqui para
cortar caminho para o Itapoã. Eles não respeitam o lugar do ciclista”,
conta Ezaqueu, que percorre cerca de 30km entre sua casa, no Condomínio
Del Lago, até o centro do Paranoá, sempre que precisa fazer compras ou
pagar uma conta. A paralisação das obras da ciclovia, segundo o DER,
foi necessária para atender uma obra “emergencial”. Há duas semanas, as
oito máquinas que trabalhavam no local fazem a pavimentação de uma via no Altiplano Leste
(próximo ao Lago Sul). “Tive que deslocar a equipe porque era uma
situação de emergência e temos poucas máquinas. Acredito que, até o
final de agosto, vamos retomar as obras”, explica o chefe do 2º
Distrito Rodoviário do DER, Murilo de Melo Santos. Até lá, Santos
pretende pedir à Polícia Rodoviária para fazer um trabalho educativo
com motoristas e evitar que eles usem a ciclovia.
Licitação vem primeiro
O trecho às margens da DF-001 (Estrada Parque Contorno), DF-015 (entre
Paranoá e Setor de Mansões do Lago Norte), e DF-250 (em Itapuã) é o
único que será feito por administração direta, pelo DER-DF. As demais
microrredes (veja mapa) dependem de licitação sem data para acontecer.
Segundo a secretária-adjunta da Secretaria de Infra-Estrutura e Obras,
Fátima Có, não há verba em 2006 para a execução do programa cicloviário
do DF. “Para licitar, temos que ter verbas. A construção das ciclovias
já foi incluída no orçamento de 2007”, garante. Pelo Programa Brasília
Sustentável, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), R$ 9 milhões estão previstos para a construção das ciclovias. O
valor equivale a 60% do orçamento inicial do programa cicloviário. “Mas
ainda não sabemos quando este dinheiro vai sair”, argumenta Fátima. A
lentidão na execução do programa e o não cumprimento da Lei Distrital
3.639/05, que cria ciclovias em estradas em fase de construção,
revoltam os integrantes da ONG Rodas da Paz. “O governo não cumpre uma
lei que ele próprio criou. Isso já aconteceu em duas obras recentes:
nas duplicações da L3 Norte e da pista que passa atrás do Jóquei Clube.
As duas obras já estão prontas e não foi prevista uma ciclovia”,
denuncia Salim. Em maio, a governadora Maria de Lordes Abadia assinou a
ordem de serviço para a construção de uma outra ciclovia, na EPTG,
ligando Taguatinga ao Seto r de Indústrias e Abastecimento (SIA). Mas
também não há data para que ela seja construída. (IF)