Cristiano Hickel (*)
Existe
um assunto muito em voga atualmente, é o aquecimento global as mudanças
climáticas e suas implicações, explorado pela mídia de forma
sensacionalista, ou não, é um tema tão antigo quanto a Declaração de
Estocolmo.
Embora tantos alertas, há tanto tempo, a humanidade
passou a preocupar-se com as catástrofes eminentes somente agora,
sentindo as mudanças na pele. Mesmo assim, com relação às nossas
atitudes, ainda vivemos numa inércia incompreensível, como se
estivéssemos aguardando o momento derradeiro em que a casa virá abaixo.
Nossos padrões de consumo (essa é a inércia) são ditados por
interesses econômicos que ainda não perceberam mudança alguma no clima,
e nem importa muito, afinal, seus valores colocam as pessoas abaixo do
papel (dinheiro). Um exemplo e símbolo desse comportamento são os
automóveis e toda cultura que se formou em torno deles. Nosso convívio
social pelas ruas da cidade está resumido ao isolamento dentro de um
casulo de metal, com rádio sintonizado de acordo com nosso estado de
espírito, telefone celular ao ouvido - e ai de quem atravessar o
caminho.
Congestionamentos? "Encare-os com superioridade",
dizia o anúncio de uma dessas camionetes enormes. "Mais do que espaço
interno, uma área vip", em anúncio de outro carro de luxo. Viva a
natureza comprando carros "Eco..." ou robustos 4x4 fora-de-estrada,
mesmo tendo eles um maior consumo de combustível, ocupando mais espaço
e impactando trilhas naturais - explícito nos próprios comerciais de
TV. Ainda, dizem alguns psicólogos, que a teoria do "sou o que possuo"
explica a falsa relação entre a potência do motor e o desempenho sexual
do seu motorista.
Essa cegueira coletiva interfere diretamente
no efeito estufa, em função da queima de combustíveis fósseis.
Atualmente existem montadoras de automóveis investindo em florestas
plantadas, com o intuito de seqüestrar carbono da atmosfera e, assim,
justificar a venda de automóveis "de consciência limpa". Ou, tecnologia
flex, como se pudéssemos abastecer todos os tanques com álcool (dito
renovável).
Mas isso não é tudo. Qual a tecnologia que
solucionará o problema do espaço urbano? E das diversas enfermidades
associadas à poluição e ruídos? E as mais de 30 mil mortes e 320 mil
feridos (desses, 120 mil adquirem uma deficiência permanente) em
acidentes de trânsito por ano no Brasil, o que representa um custo de
mais de R$ 10 bi para União?
Está na hora de colocarmos o pé
para fora do carro. Pisar no chão. Caminhar. Andar de bicicleta. Ir de
ônibus. Redescobrir nossa cidade, seus habitantes e o seu patrimônio. O
automóvel não precisa ser abolido, mas sua utilização racional se faz
necessária, e urgente. A era do carro como sinônimo de "status" acabou,
agora vemos essa máquina como símbolo de uma ganância irracional do
homem.
Para que o preconceito do motorista brasileiro àqueles
que não andam de carro se torne mera falta de informação, comunico que
Paris deseja se tornar uma cidade tranqüila, sem congestionamentos, sem
poluição, sem barulho. Ruas foram reformadas criando espaços exclusivos
e maiores para pedestres, bicicletas e ônibus. Muitos bairros,
principalmente os que servem de entrada da periferia para Paris,
tiveram ruas interditadas, vias transformadas em praças ou calçadas e a
velocidade limitada a 30 km/h.
Mas não apenas Paris anda na
vanguarda da era da humanização das cidades. Nessa lista temos Londres,
Almada, Dinamarca, Bogotá, e muitas outras. Essa é a tendência mundial,
mesmo contra a vontade de certos grupos econômicos - quem levará a pior
nessa luta são aqueles sem convicção de seus valores humanos.
Trocar
o carro por transporte público? Nem pensar! Ir de bicicleta? Loucura!
Então tome uma atitude, nem que seja a mínima de respeitar pedestres e
ciclistas, e fique com vergonha na cara. Da forma como está hoje, os
automóveis representam grave problema de saúde pública local, e
perigoso deturpador ambiental global. Quem paga essa conta somos todos
nós.
* É membro da ONG Transporte Ativo - www.ta.org.br - que
recebeu o Prêmio ANTP-Abradibi de Boas Práticas Urbanas e de Estímulo
ao Uso da Bicicleta 2005, coordenado pelo GT de Bicicleta da ANTP e
pela Associação Brasileira dos Fabricantes, Distribuidores e
Importadores de Peças e Acessórios (Abradibi). A ONG também integra o
Fórum Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta.
Fonte: Ambiente Brasil