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Blog EntryDe bicicleta vai andar o homem do futuroFeb 15, '06 6:39 AM
by Sergio for everyone

Cristiano Hickel (*)

Existe um assunto muito em voga atualmente, é o aquecimento global as mudanças climáticas e suas implicações, explorado pela mídia de forma sensacionalista, ou não, é um tema tão antigo quanto a Declaração de Estocolmo.

Embora tantos alertas, há tanto tempo, a humanidade passou a preocupar-se com as catástrofes eminentes somente agora, sentindo as mudanças na pele. Mesmo assim, com relação às nossas atitudes, ainda vivemos numa inércia incompreensível, como se estivéssemos aguardando o momento derradeiro em que a casa virá abaixo.

Nossos padrões de consumo (essa é a inércia) são ditados por interesses econômicos que ainda não perceberam mudança alguma no clima, e nem importa muito, afinal, seus valores colocam as pessoas abaixo do papel (dinheiro). Um exemplo e símbolo desse comportamento são os automóveis e toda cultura que se formou em torno deles. Nosso convívio social pelas ruas da cidade está resumido ao isolamento dentro de um casulo de metal, com rádio sintonizado de acordo com nosso estado de espírito, telefone celular ao ouvido - e ai de quem atravessar o caminho.

Congestionamentos? "Encare-os com superioridade", dizia o anúncio de uma dessas camionetes enormes. "Mais do que espaço interno, uma área vip", em anúncio de outro carro de luxo. Viva a natureza comprando carros "Eco..." ou robustos 4x4 fora-de-estrada, mesmo tendo eles um maior consumo de combustível, ocupando mais espaço e impactando trilhas naturais - explícito nos próprios comerciais de TV. Ainda, dizem alguns psicólogos, que a teoria do "sou o que possuo" explica a falsa relação entre a potência do motor e o desempenho sexual do seu motorista.

Essa cegueira coletiva interfere diretamente no efeito estufa, em função da queima de combustíveis fósseis. Atualmente existem montadoras de automóveis investindo em florestas plantadas, com o intuito de seqüestrar carbono da atmosfera e, assim, justificar a venda de automóveis "de consciência limpa". Ou, tecnologia flex, como se pudéssemos abastecer todos os tanques com álcool (dito renovável).

Mas isso não é tudo. Qual a tecnologia que solucionará o problema do espaço urbano? E das diversas enfermidades associadas à poluição e ruídos? E as mais de 30 mil mortes e 320 mil feridos (desses, 120 mil adquirem uma deficiência permanente) em acidentes de trânsito por ano no Brasil, o que representa um custo de mais de R$ 10 bi para União?

Está na hora de colocarmos o pé para fora do carro. Pisar no chão. Caminhar. Andar de bicicleta. Ir de ônibus. Redescobrir nossa cidade, seus habitantes e o seu patrimônio. O automóvel não precisa ser abolido, mas sua utilização racional se faz necessária, e urgente. A era do carro como sinônimo de "status" acabou, agora vemos essa máquina como símbolo de uma ganância irracional do homem.

Para que o preconceito do motorista brasileiro àqueles que não andam de carro se torne mera falta de informação, comunico que Paris deseja se tornar uma cidade tranqüila, sem congestionamentos, sem poluição, sem barulho. Ruas foram reformadas criando espaços exclusivos e maiores para pedestres, bicicletas e ônibus. Muitos bairros, principalmente os que servem de entrada da periferia para Paris, tiveram ruas interditadas, vias transformadas em praças ou calçadas e a velocidade limitada a 30 km/h.

Mas não apenas Paris anda na vanguarda da era da humanização das cidades. Nessa lista temos Londres, Almada, Dinamarca, Bogotá, e muitas outras. Essa é a tendência mundial, mesmo contra a vontade de certos grupos econômicos - quem levará a pior nessa luta são aqueles sem convicção de seus valores humanos.

Trocar o carro por transporte público? Nem pensar! Ir de bicicleta? Loucura! Então tome uma atitude, nem que seja a mínima de respeitar pedestres e ciclistas, e fique com vergonha na cara. Da forma como está hoje, os automóveis representam grave problema de saúde pública local, e perigoso deturpador ambiental global. Quem paga essa conta somos todos nós.

* É membro da ONG Transporte Ativo - www.ta.org.br - que recebeu o Prêmio ANTP-Abradibi de Boas Práticas Urbanas e de Estímulo ao Uso da Bicicleta 2005, coordenado pelo GT de Bicicleta da ANTP e pela Associação Brasileira dos Fabricantes, Distribuidores e Importadores de Peças e Acessórios (Abradibi). A ONG também integra o Fórum Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta.

Fonte: Ambiente Brasil


Bicicleta na Via
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