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o projeto piloto da primeira Ciclovia Participativa, uma idéia dU Biker para criar ciclovias em periferias abandonadas UB_New.mov (11.5 MB)
O totem do capital
por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
O automóvel é um dos propulsores do desenvolvimento contemporâneo, mas a paixão desvairada por ele ameaça a natureza e a civilização
Assim como os antigos sacrificavam colheitas, gado e até os filhos a ídolos e ícones aos quais seus sacerdotes atribuíam poderes imensos e uma profundidade insondável, a humanidade da era industrial sacrifica tempo, espaço, riquezas naturais e, às vezes, as próprias vidas a essas máquinas às quais os publicitários atribuem virtudes igualmente mágicas. Até as guerras empalidecem ante as estatísticas do trânsito, sem que isso inspire tanto horror quanto seria de esperar. Trata-se de sacrifícios humanos socialmente aceitos.
No mundo, os acidentes matam 1,2 milhão de pessoas por ano e ferem ou incapacitam outros 50 milhões. O custo material dessas tragédias é 518 bilhões de dólares por ano – 65 bilhões só nos países periféricos, mais do que recebem em ajuda externa. Segundo a Organização Mundial da Saúde, são a segunda maior causa de mortalidade global dos 5 aos 29 anos (depois das infecções respiratórias para as crianças e da Aids para os jovens) e a terceira dos 30 aos 44 (depois da Aids e da tuberculose). Nos países ricos, são a primeira causa até os 44 anos.
Do espaço disponível nas cidades dos EUA, 43% destina-se a ser usado não por seres humanos, mas por seus ídolos e algozes mecânicos: 33% para ruas e avenidas, 10% para estacionamentos. Considerando que há nesse país 770 automóveis por mil pessoas, pode-se dizer que cada carro dispõe de mais espaço para se movimentar do que cada pessoa dispõe para descansar, divertir-se, trabalhar e guardar o restante de suas posses. Como se chegou a isso?
Como atestaram o conto Mecanópolis de Miguel de Unamuno, em 1913, e a peça Robôs Universais Rossum, de Karel Capek, em 1921, assim como os filmes Metrópolis, de 1927, Alphaville, de 1965, Matrix, de 1999, e Eu, Robô, de 2004, o imaginário da civilização industrial é assombrado com cada vez mais freqüência pelo vago temor de máquinas a dominar ou a substituir a espécie humana.
Na maioria das vezes, tais máquinas são imaginadas como robôs ou andróides invencíveis ou como computadores de inteligência sobre-humana. Entretanto, na medida em que essa ansiedade responde a algo de real, não se trata de verdadeiras máquinas autoconscientes, mas sim da característica do capitalismo de estabelecer relações de produção não de ser humano para ser humano, como nas antigas sociedades escravistas e feudais, mas por meio de objetos – de mercadorias cobiçadas como símbolo de status a máquinas usadas na produção.
Assim como certas religiões transformam simples objetos – estátuas, símbolos, livros – em fetiches e ídolos com vontade e poderes próprios, o mesmo faz o capitalismo. O fetichismo ou personalização da mercadoria, núcleo do primeiro capítulo de O Capital, certamente não está entre os conceitos de Marx que se tornaram obsoletos. O mesmo pode-se dizer de sua contrapartida, a destituição do ser humano de si mesmo, sua coisificação: são tendências hoje muito mais irresistíveis do que eram em 1867.
Cada vez mais, o operário trabalha não para um patrão humano, mas para uma empresa impessoal que não parece ser mais que um capital, um amontoado de máquinas e outros ativos. Segundo o jornalismo econômico, decisões econômicas que podem conduzir uma nação inteira ao crescimento ou ao colapso não são tomadas por banqueiros e investidores poderosos, mas por um misterioso conjunto de papéis, telas e computadores chamado “mercado”.
Mais ainda, a se acreditar nos publicitários e nos gurus da auto-ajuda e da “psicologia evolucionária”, o desejo é condicionado – não pela sociedade, mas pela própria natureza – a reagir menos às características físicas, afetivas e sociais do parceiro que às suas posses materiais.
O popular psicólogo David Buss é um desses que dão verniz científico ao senso comum das classes médias condicionadas a competir e consumir – mais precisamente, dos universitários estadunidenses que respondem às suas pesquisas. Afirma que as mulheres, de qualquer classe e cultura, valorizam em primeiro lugar as boas possibilidades financeiras do parceiro. Ou, como dizem portadores da mesma síndrome em terras bandeirantes, “quem gosta de homem é gay, mulher gosta é de ‘karatê’ – cara ter poder, cara ter dinheiro, cara ter carro”.
Como o poder só se faz evidente nas celebridades, como o saldo bancário não vem escrito na testa, como as roupas e os modos são indicadores cada vez menos confiáveis de condição social, o carro passou a ser, por excelência, o atestado visível e móvel de classe e riqueza – e, ao menos na fantasia de seus donos, também de direito ao amor, ao respeito e à inveja do próximo. Desde as primeiras transmissões de tevê e os primeiros salões de automóvel, os publicitários associam sistematicamente automóveis a belas modelos. A ponto de que, para o paulista, uma mulher desejável é uma “máquina” – um carro, é claro. Se for muito desejável, um “avião” – luxo para poucos, admite-se com um suspiro.
No início da genealogia da cultura de ansiedade a respeito das máquinas talvez se possa pôr O Homem de Areia, de E.T.A. Hoffmann. Escrito em 1816, inspirou um famoso ensaio de Sigmund Freud, O Estranho (Das Unheimliche), e foi considerado o primeiro conto de ficção científica da história por Isaac Asimov, o autor dos livros que inspiraram Eu, Robô.
Um professor de Física apresenta a filha Olímpia aos alunos. É bela, canta bem e presta muita atenção ao interlocutor, sem bocejar ou dar qualquer sinal de tédio ou distração. O olhar é vazio e a fala escassa – seguidos “ah, ah”, de concordância, no final, um “boa noite, querido” –, mas isso deixa o protagonista ainda mais cativado por tal alma misteriosa e profunda, única a compreender seus sentimentos e elucubrações e aceitá-los sem restrições. Mas a amada vem a ser apenas um autômato – um robô, diríamos hoje – e a descoberta o leva à loucura.
No conto de Hoffmann, só o romântico e perturbado Natanael se deixa seduzir pela máquina. Os colegas são iludidos pela aparência de vida e vêem a beleza, mas a aparente estupidez e inexpressividade os mantêm a distância e sua estranheza os amedronta. Hoje, ao contrário, unheimlich é não se deixar seduzir, não lutar pela(s) melhor(es) máquina(s) que a renda familiar permita manter.
Resultado: do consumo de petróleo nos países desenvolvidos, causa principal do aquecimento global que ameaça o equilíbrio ecológico e o futuro da civilização, os veículos representavam 42% em 1973. Em 2000, sua participação havia aumentado para 58% e essa porcentagem tende a aumentar. Hoje, o consumo de petróleo na indústria e na geração de eletricidade é relativamente estável e a maior parte do crescimento da demanda está relacionado aos transportes. Não se trata apenas da operação do veículo propriamente dita: esta representa dois terços do consumo, mas outro terço está relacionado à fabricação e manutenção dos veículos e à construção de infra-estrutura (ruas, estradas, estacionamentos, postos de serviços) para possibilitar o seu uso.
Na maior parte (85%), isso significa transporte sobre pneus: ferrovias, navios e aviões representam só 15%. Por trás da magia dos fetiches e do discurso publicitário da elegância e da aerodinâmica, o automóvel é um meio de transporte extremamente ineficiente. Apesar dos aperfeiçoamentos introduzidos desde o choque do petróleo dos anos 70, só 12% do combustível produz movimento útil. O resto é perdido pelo sistema de refrigeração do motor ou desperdiçado em escapamento, freagem ou atrito no motor, transmissão e eixos. Da energia posta em movimento, talvez 5% a 20%, dependendo do veículo e da ocupação, é para transportar pessoas e seus pertences: o resto movimenta a própria massa do carro. Noves fora, um carro é 1% transporte e 99% desperdício e exibição.
Em sua primeira visita à Terra, um extraterrestre pouco sofisticado poderia julgar que o automóvel é a espécie dominante do planeta e que os humanos são seus escravos, sem fazer muita distinção entre culturas. Na verdade, há graus de devoção: europeus e asiáticos são mais comedidos. Satisfazem-se com carros menores e investem muito em transporte coletivo, criando e mantendo eficientes e velozes trens de passageiros e amplas redes de transporte metropolitano.
Já os americanos – estadunidenses, sobretudo, mas também os brasileiros mais remediados – entregam-se ao culto sem reservas e procuram reprimir as heresias. Salvo por melancólicas estações de subúrbio, os trens de passageiros foram abolidos ou relegados a museus. Os metrôs, quando existem, são embrionários.
Mesmo o transporte público sobre pneus é lento, precário, como se fosse o caso de condenar ao inferno aqueles que não pagam o dízimo à verdadeira religião. Nos anos 90, o tempo médio em uma viagem de casa ao trabalho era de 51 minutos no Rio de Janeiro, ante 36,5 minutos em Nova York e 35 em Paris, mas para muitos dos mais pobres, o suplício dura, ainda, até três horas. A classe média motorizada escapa dessas penas mais cruéis para o purgatório dos engarrafamentos e rodízios. O céu, claro, é dos ricos e de seus helicópteros.
O carro pode ser uma fantasmagoria enquanto corporificação de impulsos eróticos desviados e a suposta liberdade de movimento que promove é desmentida a cada semáforo e a cada congestionamento. Entretanto, seus efeitos destrutivos sobre a natureza são bem reais. Como também seus efeitos construtivos em relação ao capital. Do fim da Primeira Guerra Mundial aos nossos tempos, a história do capitalismo pode ser dividida em dois períodos: a era do fordismo e a do toyotismo.
Nos anos 20, Henry Ford provocou a maior revolução nos métodos de produção, gestão e regulação do capitalismo desde a invenção da máquina a vapor. A organização racional do trabalho, com otimização e controle minucioso dos tempos e métodos gastos em cada operação, havia sido proposta e implementada pelo engenheiro Frederick Taylor em 1911, mas dependia muito de fiscalização e supervisão por intermediários. De um só golpe, a linha de montagem de Ford deu forma material e objetiva ao controle e o tornou praticamente automático. Em vez de ser simplesmente apressado pelo contramestre, o operário tinha de correr para acompanhar o ritmo da esteira, como Carlitos em Tempos Modernos.
Ford não se satisfez com o controle absoluto do processo produtivo em suas fábricas: pretendeu também moldar a sociedade e em certa medida o conseguiu. Para viabilizar fábricas na escala necessária para produzir automóveis em ritmo de linha de montagem, abriu mão do controle direto pessoal do capital e deu impulso à multiplicação das sociedades anônimas que na época ainda eram exceção, mas hoje respondem pela maior parte da economia.
Enquanto o aumento de produtividade reduzia o preço do produto, Ford conscientemente melhorava a remuneração de seus empregados em relação aos padrões da época e os incentivava a adquirir seus automóveis, dando a partida ao modelo de crescimento que respondeu pelos “anos dourados” do capitalismo do pós-guerra ao se espalhar por todo o mundo industrializado ou em vias de industrialização, uma vez que os governos compreenderam a natureza do novo processo e começaram a aplicar as ferramentas keynesianas adequadas à sua coordenação e regulação em escala nacional.
Na versão tropical desses já velhos bons tempos, Juscelino Kubitschek fez o Brasil mergulhar de cabeça na revolução fordista. No início dos “50 anos em 5”, havia apenas um punhado de veículos importados e uma só estrada asfaltada de extensão razoável, a via Dutra. Ao final, várias montadoras estadunidenses e européias estavam instaladas no ABC paulista, cujos produtos podiam, bem ou mal, rodar o país de Belém ao Chuí. Entretanto, as ferrovias, embora tivessem ainda destaque em seu Plano de Metas, foram praticamente abandonadas – e a ditadura militar não fez mais do que aprofundar esse modelo montado, no qual o Brasil se tornou o maior pólo industrial da América Latina, deixando para trás pioneiros como o México e a Argentina.
Nem todas as idéias de Ford foram igualmente bem-sucedidas. Com o objetivo de eliminar a embriaguez, reduzir as faltas ao trabalho e aumentar ainda mais a produtividade, deu um apoio à proibição do álcool que foi decisivo para a vitória da Lei Seca, mas o resultado, como se sabe, foi uma catástrofe social. O excesso de puritanismo de Ford foi-lhe contraproducente também em outros aspectos. Por ver o carro sob o aspecto funcional, e padronizar ao máximo para baratear seu custo (“Você pode ter seu modelo T de qualquer cor, desde que seja preto”), deixou de explorar todo o potencial do automóvel como símbolo de distinção social e fetiche erótico. Coube à General Motors descobrir esse filão e tomar a liderança.
Ainda assim, Ford fundou a sociedade de consumo. Se Lenin foi um grande admirador de Taylor, Stalin teceu elogios ainda maiores aos métodos de Ford. O escritor Aldous Huxley chegou a imaginar que a revolução fordista duraria para sempre e acabaria por absorver tanto o capitalismo liberal quanto o socialismo: seu Admirável Mundo Novo, escrito em 1932, passa-se no ano 632 d.F. (depois de Ford), quando as pessoas, em vez do sinal-da-cruz, fazem um T.
A era Ford, porém, não durou tanto: a partir dos anos 70, o acirramento da competição internacional pôs abaixo o modelo de planejamento em escala nacional, no qual se podia confiar que praticamente todos os aumentos concedidos aos trabalhadores seriam gastos em produtos nacionais e engordariam o lucro e o capital dos seus empregadores. Juntamente com as crises do dólar e do petróleo, também desmontou a expectativa de que a modernização e o crescimento econômico avançariam, qual linha de montagem, em ritmo previsível e planejável.
Voltada para o mercado externo e pronta para reagir imediatamente a mudanças de conjuntura e de preferências, a grande indústria esforçou-se para livrar-se de seus operários, reduzir seus salários e adotar sistemas de produção mais flexíveis e adaptáveis, enquanto governos e organizações multilaterais davam atestado de óbito ao keynesianismo e aderiam ao neoliberalismo selvagem. Mais uma vez, porém, as montadoras deram o mote e o nome à nova fase do capitalismo: trata-se agora de toyotismo. Mudaram os ritos e os profetas, não os deuses.
Fonte: Carta Capital
http://www.estado.com.br/editorias/2007/02/03/ger-1.93.7.20070203.12.1.xml?
Petrolífera paga por artigo contra IPCC
ExxonMobil oferece US$
10 mil para trabalhos que contestem relatório
The Guardian
Um grupo lobista fundado por uma das maiores companhias petrolíferas do
mundo está oferecendo dinheiro para que cientistas e economistas
escrevam artigos refutando o relatório divulgado ontem pelo Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
O
Americam Enterprise Institute (AEI) - grupo que exerce pressão no
Congresso americano e que teve sua criação financiada pela ExxonMobil -
está enviando cartas com ofertas de US$ 10 mil para especialistas que
aceitem contestar o relatório. A principal conclusão do estudo do IPCC
é que o aquecimento global é provocada pela ação humana, especialmente
através do dióxido de carbono gerado pelo combustível que impulsiona os
automóveis - produzido a partir do petróleo.
CONCLUSÕES SUMÁRIAS
As
ofertas enviadas pelo grupo atacam o relatório como “resistente a
críticas e aberto a conclusões sumárias que mal se sustentam em
análises”. O grupo pede por artigos que “explorem as limitações do
modelo climático proposto pelo IPCC”.
Cientistas que
participaram do trabalho dizem que o relatório do IPCC traz “evidências
científicas esmagadoras” para sustentar suas conclusões. Segundo David
Viner, da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia,
as ofertas são “tentativas de uma organização que quer esconder seus
objetivos políticos”.
MÁFIA
O AEI já recebeu mais
de US$ 1,6 milhão da gigante petrolífera ExxonMobil. O vice-presidente
do conselho deliberativo do grupo, Lee Raymond, foi um dos diretores da
empresa. O grupo também mantém ligações com o governo do presidente
George W. Bush, que teve várias empresas da área do petróleo entre as
principais financiadores de suas campanhas. Mais de 20 de seus
funcionários trabalharam como consultores para o governo Bush.
Para
Ben Stewart, dirigente do Greenpeace, “o AEI é mais do que um lobby.
Trata-se da Cosa Nostra (máfia) intelectual da Casa Branca”.
“O
relatório do IPCC é extremamente sólido. Essas críticas tentam reduzir
a confiança da população nos cientistas e evitar que os governos tomem
as ações necessárias”, concorda Viner.
Na próxima segunda, outra
organização, baseada no Canadá e também ligada à ExxonMobil, vai lançar
um trabalho que promove dúvidas sobre a validade científica do
relatório do IPCC. Entre os autores estão Tad Murty, um cientista que
acredita que as atividades humanas não contribuem para o efeito estufa.
Também estarão presentes Nigel Lawson e David Bellamy, defensores da
tese de que a queima de combustível fósseis não tem ligação com o
aquecimento global.
AQUECIMENTO GLOBAL
O preço do descaso
Relatório
produzido para o governo britânico conclui que efeitos das mudanças
climáticas podem consumir 20% do PIB mundial. Nações mais pobres
sofrerão de modo mais intenso e prematuro
Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio
O mais completo relatório sobre aquecimento global já preparado no
Reino Unido traz conclusões alarmantes: o custo anual dos efeitos da
mudança climática não controlada pode chegar em 2050 a 20% do Produto
Interno Bruto (PIB) mundial, estimado em US$ 44,3 trilhões. O atual
nível de emissão de gases que provocam o efeito estufa equivale a 430
partes por milhão (ppm) de gás carbônico — durante a Revolução
Industrial (1780-1880), esse índice era de 280 ppm. Nos últimos 120
anos, a alta concentração de poluentes no ar provocou um aumento de
meio grau centígrado na temperatura média do planeta.
Encomendadas pelo premiê britânico, Tony Blair, e assinadas por
Nicholas Stern, chefe do Serviço Econômico, as 700 páginas do Estudo
Stern sobre a Economia da Mudança Climática alertam ainda que há 77% de
chances de a temperatura global média sofrer um acréscimo de dois graus
Celsius em meio século. Numa previsão ainda mais catastrófica, a Terra
poderia aquecer cinco graus nas próximas décadas, levando a uma mudança
radical na geografia física do mundo (veja o gráfico nesta página).
Como conseqüência, a economia mundial encolheria em um quinto, e a
humanidade sofreria os mesmos efeitos da Grande Depressão de 1930 —
quando a quebra da Bolsa de Valores de Nova York resultou numa recessão
econômica que golpeou principalmente as grandes potências.
O documento entregue a Blair prevê ainda que a concentração de
gases estufa na atmosfera deve atingir, daqui a 44 anos, o dobro dos
níveis pré-industriais (550ppm). Neste ritmo de aquecimento global,
secas e inundações farão com que 200 milhões de pessoas se tornem
refugiadas neste século. A América Latina seria uma das regiões mais
rapidamente afetadas pelas variações do clima, por sua economia
depender de recursos naturais.
Realismo
Em entrevista por telefone ao Correio, o britânico Cameron Hepburn
— co-autor do estudo e economista especializado em política climática —
afirmou que o relatório é “bastante realista”. “Existe um perigo que
pode ser devastador”, revela. Segundo ele, o documento trata o problema
do ponto de vista econômico e propõe um gerenciamento de riscos. “O
texto aborda a necessidade de se impor taxas sobre o preço da emissão
de carbono na atmosfera ou de se ampliar o comércio de carbono na
Europa.”
Os países signatários do Protocolo de Kyoto instituíram um mercado
em que nações com baixos índices de emissões podem vender cotas aos
países onde a poluição está acima da média. O relatório britânico
defende mais investimentos em tecnologias renováveis e novas
legislações para o desenvolvimento de produtos “limpos”. Os efeitos
quase catastróficos do aquecimento global destoam do relativo baixo
custo para a prevenção. O Estudo Stern estima serem necessários apenas
US$ 670 bilhões (1% do PIB mundial) para reverter o quadro.
Uma fonte do governo Blair confirmou à reportagem que todos os
países serão afetados pelas mudanças climáticas, mas as nações mais
pobres sofrerão de modo intenso e prematuro. Mesmo assim, ela considera
o relatório “essencialmente” otimista. “Ainda há tempo de evitar os
piores impactos, se agirmos agora e internacionalmente”, afirma.
“Governos, empresas e indivíduos precisam trabalhar juntos para
responder ao desafio, mas a tarefa é urgente. Atrasar a ação, por uma
ou duas décadas, nos levará a um território perigoso”, acrescenta. O
Reino Unido e os Estados Unidos acreditam que será necessário reduzir
em até 80% as emissões de poluentes até 2050.
As conclusões do estudo assombraram entidades ambientalistas. O
Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) considera o texto um indício
da urgência para que atitudes contra o aquecimento sejam tomadas
durante a 12ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP12) — entre os
próximos dias 6 e 17, em Nairóbi (Quênia). “Os países em
desenvolvimento são os mais afetados economicamente pelas mudanças
climáticas. Nossas possibilidades de investimento para nos adaptarmos a
essas transformações são menores que as das nações desenvolvidas”, diz
Karen Suassuna, técnica em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.
PROVÁVEIS SOLUÇÕES
Propostas do governo britânico para reduzir os efeitos da mudança climática a longo prazo
Diminuir as emissões de gases estufa na Europa em 60% até 2050
Até 2010, ter 5% de todos os carros do Reino Unido abastecidos com biocombustíveis
Criar uma autoridade ambiental independente
Estabelecer laços comerciais com Brasil, Papua Nova Guiné e Costa Rica, de modo a assegurar o reflorestamento sustentável
Trabalhar com a China em tecnologias limpas de carvão
Brasil tem importância
O governo brasileiro aproveitará a 12ª
Conferência das Partes sobre o Clima para apresentar uma proposta de
reduções compensadas de emissões de gases estufa provenientes do
desmatamento. Para o britânico Cameron Hepburn, co-autor do Estudo
Stern, o país é um ator importante na diminuição dos efeitos da mudança
climática. “O Brasil tem a tarefa significativa de manter as florestas
e pode contribuir bastante com os esforços globais”, diz. “Seria justo
que o Ocidente ajudasse o Brasil no processo. O país pode exercer
liderança, com uma política antidesmatamento.”
Hepburn explica que os transportes terrestres e aéreos são
responsáveis por 14% das emissões globais de poluentes. “Para
reduzi-las, precisamos viajar menos e substituir os combustíveis
fósseis. O Brasil também pode se tornar líder, ao aumentar o número
proporcional de veículos movidos a biocombustível.”
Segundo o Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de
Minas e Energia (MME), o Brasil é o maior exportador mundial de álcool
— em 2006, serão vendidos 3 bilhões de litros. O país não vende
biodiesel para outras nações. “O mercado internacional é incipiente e
tem grande potencial”, afirmou uma fonte do MME. (RC)
| Emissões de CO2 chegam ao nível mais alto
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Aquecimento global está perto de um ponto irreversível. Especialista diz que EUA são antiéticos
Roberta Jansen escreve para “O Globo”:
A
despeito do debate internacional e de algumas medidas adotadas na luta
contra o aquecimento global, as emissões de gases do efeito estufa só
fazem aumentar.
Segundo dados das Nações Unidas, as emissões
alcançaram, em 2004, seu volume mais alto em uma década: naquele ano
foram lançadas 17,8 bilhões de toneladas na atmosfera, 1,6% a mais que
em 2003.
Na análise de especialistas, se continuar assim, o mundo caminha a passos largos para uma catástrofe climática.
O
novo presidente da Associação Americana para o Avanço da Ciência, John
Holdren, afirmou à BBC que o clima mundial está mudando muito mais
rapidamente do que o previsto e que, em breve, a situação será
irreversível.
“Estamos vivenciando uma perigosa intervenção humana no clima mundial e vamos vivenciar muito mais”.
Os
governantes precisariam agir já e de forma bastante agressiva para
tentar alterar o quadro. Sobretudo os Estados Unidos, os maiores
emissores.
“O tempo de fazer alguma coisa está acabando”,
afirmou Don Brown, da Universidade Estadual da Pensilvânia, ex-assessor
do então presidente Bill Clinton, dos EUA, no Rio para participar do
debate “A dimensão ética das mudanças climáticas”, organizado pela
Coppe/UFRJ. “Reduzir um pouco o volume das emissões não adianta. A
redução a ser feita é muito grande. Precisamos cortar de 60% a 80% das
emissões.”
Segundo a ONU, a maior parte do aumento de emissões
em 2004 foi causada pela elevação de 1,7% do volume de gases lançados
na atmosfera pelos EUA — o maior emissor do mundo, com 7 bilhões de
toneladas.
“Nesse ritmo, chegaremos ao fim do século lançando 20
bilhões de toneladas por ano”, denunciou Brown. “Para termos uma
estabilização de fato do volume de CO2 na atmosfera, teríamos que
emitir apenas 3 bilhões.”
Crescimento acumulado desde 1990 é de
15% Segundo Brown, o índice de emissões dos EUA vem crescendo 1,5% ao
ano. O crescimento é registrado desde 1990 e já acumula um aumento de
aproximadamente 15%.
Brown, que defendeu a entrada dos EUA no
Protocolo de Kioto (George W. Bush se recusou a ratificá-lo), admite
que as metas do acordo são simbólicas, mas necessárias.
As leis
estaduais que começam a surgir, estabelecendo limites de emissões, são
importantes, diz Brown, mas uma solução mais global é indispensável.
“As emissões estão hoje 14% acima dos níveis de 1999, quando, segundo Kioto, deveriam estar 7% abaixo”, apontou Brown.
Para
o especialista, as justificativas usadas pelos EUA para não ratificarem
Kioto ou adotarem medidas mais eficazes contra o aquecimento são
antiéticas.
“Os três grandes argumentos do governo americano são condenáveis do ponto de vista ético”, sustentou Brown.
Uma das justificativas de Bush é a de que não haveria provas científicas ligando as emissões ao aquecimento do planeta.
“Mesmo
os cientistas mais otimistas apontam as conseqüências”, afirmou Brown.
“E, até esperarmos todas as certezas, o dano será irreversível”.
As
outras justificativas são o custo da redução à economia americana e o
fato de os países em desenvolvimento não estarem incluídos nas reduções
previstas por Kioto.
“É um problema para o mundo todo, não só
para os EUA. E nem está claro que afetaria tanto assim. Parece que
afeta, sim, interesses de grupos de petróleo poderosos”, afirmou.
“Também não faz sentido dizer que não vai fazer nada porque outros não
estão fazendo. É o mesmo que dizer que vai roubar porque outros roubam.
Não é eticamente racional.” (O Globo, 1º/9) |
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