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Fonte: Le Monde diplomatique Cada novo aumento da produção automobilística é comemorado pela mídia. Compram-se automóveis em 99 prestações. Entupidas, as cidades param. Estaremos, como diz Paulo Mendes da Rocha, nos dedicando a aprimorar a máquina de produzir veneno que inventamos? José Correa Leite O governo, os empresários e a mídia comemoraram, em 2007, a produção de três milhões de automóveis no Brasil. Agora, ambicionam uma meta ainda maior. Grande parte desses carros foi vendida na cidade de São Paulo. Todos os dias, 650 novos automóveis (além de 250 motos) são licenciados. São apenas os últimos acréscimos a uma frota de seis milhões de veículos — a segunda do mundo. A capital paulista enfrenta um trânsito cada vez mais lento, forçando grande parte da população a passar horas e horas em congestionamentos. Apesar do aumento do preço do petróleo, a indústria automobilística mundial conhece um de seus maiores booms. Fabricantes indianos e chineses introduzem no mercado veículos de 2.500 dólares, que cedo ou tarde chegarão aqui. No Brasil, carros zero são agora financiados em até 99 meses. É perceptível que a velocidade de circulação nas cidades brasileiras está caindo rapidamente (o Rio de Janeiro está seguindo o caminho de São Paulo). Todos vêm sentindo as conseqüências tanto da irresponsabilidade das autoridades para com o transporte coletivo quanto da expansão sem barreiras da frota de veículos. A quantidade dos que rodam em São Paulo cresceu. Em um ano, houve um aumento de 7%, sendo três quartos automóveis que, normalmente, circulam apenas com seus motoristas. A enorme expansão do número de motocicletas (cerca de um milhão), autorizadas pela legislação em vigor a circular entre as faixas, também contribui para degradar o trânsito e aumentar as mortes em acidentes. Os problemas não se restringem ao trânsito. A poluição, causada essencialmente pelos veículos, em São Paulo, voltou a piorar, agravando, também, as tendências ao aquecimento da região. A cada dia, duas ou três horas da vida de dez milhões de pessoas seja jogada fora, num estresse sem propósito. Mas elas têm dificuldades de perceber seu caráter grotesco Temendo desgastar-se, a prefeitura não adota medidas de restrição à circulação de veículos — como pedágios urbanos, praticados nas capitais européias, exclusão dos automóveis particulares do centro velho, aumento do rodízio (como fez a Cidade do México) e da fiscalização (um terço da frota é irregular), maiores restrições a caminhões no centro ou a simples expansão das zonas azuis. Também não acelera a criação de corredores exclusivos de ônibus, por pressão dos comerciantes e moradores das vias onde eles seriam implantados. O prefeito Gilberto Kassab afirmou que os congestionamentos são resultado da falta de investimento municipal na expansão do metrô nos últimos 32 anos. Para Kassab, agora “não adianta chorar sobre o leite derramado” [1]. O presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (e seu gestor em vários governos conservadores) Roberto Scaringella foi mais franco: não haverá “medidas radicais que dariam fluidez” ao trânsito, porque “podem impactar negativamente a economia”. “A conseqüência é que a gente terá de aprender a conviver com um número maior de quilômetros de lentidão. Quando eles se excedem, não gera um colapso da cidade, mas a deterioração e a delinqüência urbana”, completou Scaringella [2]. Pressionada pela imprensa, a prefeitura acabou anunciando uma série de medidas, mas elas são cosméticas: redução do espaço para estacionamento em algumas ruas, divulgação de rotas alternativas às vias principais etc. A atuação do governo do Estado também é marcada pela inação. Ele não acelera a expansão do metrô e, tampouco, cumpre as metas de construção da Linha 4 - Amarela, onde os métodos privatistas geraram sucessivos desastres e atrasos [3]. Perdido em disputas menores de rateio dos custos com a prefeitura, o governo, nem mesmo, geri uma integração adequada com a rede de ônibus. É absurdo que duas ou três horas por dia da vida de dez milhões de pessoas seja jogada fora, em um estresse sem propósito. Mas o sistema do automóvel está tão profundamente arraigado no imaginário das pessoas que elas têm dificuldades de perceber seu caráter grotesco. É aceito como natural ou inevitável, permitindo que governantes ajam de forma irresponsável. No entanto, como afirma o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, “é como se tivéssemos inventado uma máquina de produzir veneno e, todo dia, nos empenhássemos em aprimorá-la. A questão dos transportes é fundamental. Não se trata, puramente, de introduzir conforto. Trata-se de ver que, queimar petróleo para transportar uma pessoa de 60 quilos numa lataria de 700 quilos, que não anda, é um erro grave. É repugnante ver a cidade congestionada de carros que não andam. A questão não é fazê-los andar, é ver que isso não tem saída, o transporte individual é uma bobagem. Construir túneis e viadutos é aprimorar a máquina do veneno. E já não importa que o carro não ande, porque você vê todo mundo lá dentro falando no celular, usando o laptop... É a rota do absurdo” [4]. O correto é que o uso do transporte individual seja desestimulado, o coletivo favorecido e o usuário do carro passe a pagar por todo o impacto que provoca O proprietário do carro impõe, a toda sociedade, custos que ele não paga no IPVA ou quando compra o automóvel. Ocupação do espaço público (50% do território urbano em São Paulo é dedicado ao transporte), perda de tempo, danos à saúde de milhões de pessoas etc. O correto é que o uso do transporte individual seja desestimulado, o coletivo favorecido e o usuário do carro passe a pagar por todo o impacto que provoca. Parece evidente que não se pode esperar nada dos governantes! Esse é um problema que São Paulo só poderá enfrentar se organizar um movimento cidadão que reúna força política para libertar a cidade da ditadura do automóvel. Uma mobilização com propósitos claros, capaz de impor uma expansão da oferta e qualidade do transporte público e reduzir o espaço para o carro. Assistimos, nos últimos anos, ao acúmulo de uma série de problemas de novo tipo, gerados pela lógica sem freios do mercado. Esse cobram um preço humano e ambiental cada vez maior. O caso mais notório é o do aquecimento global, resultado de toda a economia do petróleo, carvão e automóvel, associada ao consumismo desenfreado. Ela exige pensarmos a atividade produtiva em função das necessidades humanas e não da busca do lucro e, portanto, do crescimento. Mas, como manter o capitalismo sem a maior expansão possível? E agora os moradores de São Paulo enfrentam as conseqüências da irracionalidade que representa a “racionalidade” do mercado. Cada um busca satisfazer seus desejos na lógica do transporte (ou do consumo) individual, sem que haja intervenção do poder regulador de caráter público tolhendo os absurdos que o consumismo carrega. Todas são questões que colocam a necessidade de outra vida e de outra organização da nossa sociedade em discussão. [1] Folha de S.Paulo, 7/3/2008, p. C6. [2] Folha de S.Paulo, 9/3/2008, p. C3 [3] Quando licitada em 2001, a Linha 4 - Amarela estava prevista para entrar em operação em 2006. Mas, na melhor das hipóteses, ela começará a funcionar de forma parcial, em 2010! [4] Entrevista concedida à Carta Capital, 15 de agosto de 2007, p. 64
o projeto piloto da primeira Ciclovia Participativa, uma idéia dU Biker para criar ciclovias em periferias abandonadas UB_New.mov (11.5 MB)
Após a chocante revelação de que o calor gerado pelo corpo através de exercícios vigorosos é um grande contribuidor para o aquecimento global, todos nós devemos rever nossos conceitos. É uma grande surpresa para muitos de nós saber que armazenar a energia na gordura humana é um meio precioso de reduzir nosso impacto no meio-ambiente. O governo está introduzindo planos para extrair essa gordura em uma larga escala com programas de lipoaspiração e armazenando-a no subterrâneo, mas todos temos a responsabilidade de reduzir nossa participação na atividade física de risco ecológico. Olhando para meu estilo de vida, é fácil identificar meu hábito de pedalar como um grande problema. Estou ciente da quantidade de calor que o ciclismo pode gerar mas abandonar isso não seria fácil, então, seis meses atrás eu procurei ajuda com meu amigo Jeremy. Ele não pedala desde criança e é respeitavelmente 20kg mais pesado que eu. Ele agora gerencia uma consultoria que ajuda pessoas como eu a entender e superar nosso déficit ambiental. Eu expliquei ao Jeremy que eu estava tentado reduzir a milhagem das minhas pedaladas: “Eu tenho tentado mantê-las em 10 milhas mas elas vêm aumentando gradualmente - às vezes eu faço de 20 a 30 milhas por dia. E os fins de semana são os piores, quando o sol está brilhando eu não consigo resistir em ir às montanhas.” Jeremy explicou que existiam diferentes abordagens sobre o problema: “Algumas pessoas conseguem gradualmente reduzir suas pedaladas mas isso não funciona para todos. Pessoas como você precisam parar de pedalar inteiramente em um dia. Sugiro que se livre de sua bicicleta e compre um carro.” “Comprar um carro? Mas essa é uma maneira tão ineficiente de se andar pela cidade. Você nunca sabe quando vai chegar por causa do congestionamento e problemas com estacionamento. Quero dizer, eu tenho trabalho a fazer e as pessoas dependem que eu chegue a tempo nos meus compromissos.” “Você deve explicar às pessoas o porquê de você estar fazendo essa escolha. Provavelmente vai notar que são muito compreensíveis.” “E quanto às longas viagens? Eu uso minha bicicleta dobrável pra chegar na estação de trem e depois consigo trabalhar no trem - é incrivelmente conveniente. Em um carro você apenas tem que ficar sentado lá sem poder fazer mais nada.” “Bem, eu admito que pode ser difícil combinar uma viagem de carro com outras atividades mas você ficaria surpreso com o quanto pode-se fazer com pouca prática. Falar no telefone, mandar torpedos SMS, fumar, comer, beber - tudo é possível.” “Mas e quanto ao custo? Quero dizer, carros custam milhares de libras e isso apenas para comprar um. Depois tem todos os custos de rodagem, seguro e impostos e todo o inconveniente de quando quebra e tudo mais. E, além do mais, se eu parar de fazer exercícios e engordar, provavelmente estarei encurtando minha vida também. Então você está me oferecendo a oportunidade de ter menos dinheiro e morrer mais cedo. Não é muito cativante.” Jeremy olhou ressentido. “Olha, eu entendi o ponto. Mas você tem que me dar algum crédito. E com relação à diversão? Eu adoro pedalar, tanto subindo quanto descendo ladeiras - especialmente quando estou “off road” na minha mountain bike. Como posso ter uma sensação dessa em um carro? Quero dizer, é o mesmo que sentar em uma cadeira de rodas. Tenho medo de ficar tão entediado.” Jeremy sorri. “Eu posso ajudá-lo nisso! Você precisa apenas dirigir o mais rápido possível e a velocidade irá compensar por estar dentro de uma caixa. Pode ser muito divertido.” “Soa legal, mas, me perdoe se estou sendo covarde, isso também não é terrivelmente perigoso? Eu escutei que milhares de pessoas são mortas e feridas todo ano por causa de excesso de velocidade nas ruas. E você também pode ter problemas com as autoridades por dirigir em alta velocidade também, certo?” Desta vez Jeremy deu risada. “Ah, agora estamos chegando no ponto - para ter sucesso você precisa de uma mudança fundamental de atitude. Eu entendo que como várias outras pessoas você pensa que ser um motorista é apenas passar no teste e entrar no carro.” “Não é isso?” “Não, para ser um verdadeiro motorista você precisa acreditar no motorismo.” “Motorismo? O que na terra é isso?” “Motorismo é um sistema de fé com dois princípios fundamentais. O primeiro é que, como motorista, você tem direito de dirigir da maneira que quiser e pra onde quiser. Não caia na armadilha do senso comum de pensar que a vulnerabilidade dos ciclistas, animais, pedestres e quem quer que seja, podem afetar como e pra onde você dirige.” “Ah, certo. Bom, posso ver como seria fácil cair nessa armadilha em particular. E qual o segundo princípio?” “O segundo princípio é que a raiva no volante é bom. Sim, você ouvirá pessoas falando sobre a raiva no volante como se fosse uma coisa ruim mas isso, claro, é sem noção. Há tantos obstáculos para motoristas encararem - leis de trânsito, burocracia do trânsito, congestionamentos e claro, trânsito - que eles precisam de raiva e agressão para superá-los. Afinal, se você pensar no estresse real e custo de dirigir você provavelmente desistiria e pegaria um ônibus, e onde estaríamos?” *suspira* “Tenho que admitir que não tenho resposta para isso.” Então como tenho me saído seis meses depois? Mesmo que eu tente dirigir para todos os lugares e não pedalar minha bicicleta, ainda acho que não posso me chamar um real motorista. Mas pelo menos eu sei que estou mais pobre, gordo e com raiva do que nunca. Tradução Lilx do original: “How do give up cycling”
http://www.estado.com.br/editorias/2007/02/03/ger-1.93.7.20070203.12.1.xml?
Petrolífera paga por artigo contra IPCC
ExxonMobil oferece US$
10 mil para trabalhos que contestem relatório
The Guardian
Um grupo lobista fundado por uma das maiores companhias petrolíferas do
mundo está oferecendo dinheiro para que cientistas e economistas
escrevam artigos refutando o relatório divulgado ontem pelo Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
O
Americam Enterprise Institute (AEI) - grupo que exerce pressão no
Congresso americano e que teve sua criação financiada pela ExxonMobil -
está enviando cartas com ofertas de US$ 10 mil para especialistas que
aceitem contestar o relatório. A principal conclusão do estudo do IPCC
é que o aquecimento global é provocada pela ação humana, especialmente
através do dióxido de carbono gerado pelo combustível que impulsiona os
automóveis - produzido a partir do petróleo.
CONCLUSÕES SUMÁRIAS
As
ofertas enviadas pelo grupo atacam o relatório como “resistente a
críticas e aberto a conclusões sumárias que mal se sustentam em
análises”. O grupo pede por artigos que “explorem as limitações do
modelo climático proposto pelo IPCC”.
Cientistas que
participaram do trabalho dizem que o relatório do IPCC traz “evidências
científicas esmagadoras” para sustentar suas conclusões. Segundo David
Viner, da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia,
as ofertas são “tentativas de uma organização que quer esconder seus
objetivos políticos”.
MÁFIA
O AEI já recebeu mais
de US$ 1,6 milhão da gigante petrolífera ExxonMobil. O vice-presidente
do conselho deliberativo do grupo, Lee Raymond, foi um dos diretores da
empresa. O grupo também mantém ligações com o governo do presidente
George W. Bush, que teve várias empresas da área do petróleo entre as
principais financiadores de suas campanhas. Mais de 20 de seus
funcionários trabalharam como consultores para o governo Bush.
Para
Ben Stewart, dirigente do Greenpeace, “o AEI é mais do que um lobby.
Trata-se da Cosa Nostra (máfia) intelectual da Casa Branca”.
“O
relatório do IPCC é extremamente sólido. Essas críticas tentam reduzir
a confiança da população nos cientistas e evitar que os governos tomem
as ações necessárias”, concorda Viner.
Na próxima segunda, outra
organização, baseada no Canadá e também ligada à ExxonMobil, vai lançar
um trabalho que promove dúvidas sobre a validade científica do
relatório do IPCC. Entre os autores estão Tad Murty, um cientista que
acredita que as atividades humanas não contribuem para o efeito estufa.
Também estarão presentes Nigel Lawson e David Bellamy, defensores da
tese de que a queima de combustível fósseis não tem ligação com o
aquecimento global.
AQUECIMENTO GLOBAL
O preço do descaso
Relatório
produzido para o governo britânico conclui que efeitos das mudanças
climáticas podem consumir 20% do PIB mundial. Nações mais pobres
sofrerão de modo mais intenso e prematuro
Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio
O mais completo relatório sobre aquecimento global já preparado no
Reino Unido traz conclusões alarmantes: o custo anual dos efeitos da
mudança climática não controlada pode chegar em 2050 a 20% do Produto
Interno Bruto (PIB) mundial, estimado em US$ 44,3 trilhões. O atual
nível de emissão de gases que provocam o efeito estufa equivale a 430
partes por milhão (ppm) de gás carbônico — durante a Revolução
Industrial (1780-1880), esse índice era de 280 ppm. Nos últimos 120
anos, a alta concentração de poluentes no ar provocou um aumento de
meio grau centígrado na temperatura média do planeta.
Encomendadas pelo premiê britânico, Tony Blair, e assinadas por
Nicholas Stern, chefe do Serviço Econômico, as 700 páginas do Estudo
Stern sobre a Economia da Mudança Climática alertam ainda que há 77% de
chances de a temperatura global média sofrer um acréscimo de dois graus
Celsius em meio século. Numa previsão ainda mais catastrófica, a Terra
poderia aquecer cinco graus nas próximas décadas, levando a uma mudança
radical na geografia física do mundo (veja o gráfico nesta página).
Como conseqüência, a economia mundial encolheria em um quinto, e a
humanidade sofreria os mesmos efeitos da Grande Depressão de 1930 —
quando a quebra da Bolsa de Valores de Nova York resultou numa recessão
econômica que golpeou principalmente as grandes potências.
O documento entregue a Blair prevê ainda que a concentração de
gases estufa na atmosfera deve atingir, daqui a 44 anos, o dobro dos
níveis pré-industriais (550ppm). Neste ritmo de aquecimento global,
secas e inundações farão com que 200 milhões de pessoas se tornem
refugiadas neste século. A América Latina seria uma das regiões mais
rapidamente afetadas pelas variações do clima, por sua economia
depender de recursos naturais.
Realismo
Em entrevista por telefone ao Correio, o britânico Cameron Hepburn
— co-autor do estudo e economista especializado em política climática —
afirmou que o relatório é “bastante realista”. “Existe um perigo que
pode ser devastador”, revela. Segundo ele, o documento trata o problema
do ponto de vista econômico e propõe um gerenciamento de riscos. “O
texto aborda a necessidade de se impor taxas sobre o preço da emissão
de carbono na atmosfera ou de se ampliar o comércio de carbono na
Europa.”
Os países signatários do Protocolo de Kyoto instituíram um mercado
em que nações com baixos índices de emissões podem vender cotas aos
países onde a poluição está acima da média. O relatório britânico
defende mais investimentos em tecnologias renováveis e novas
legislações para o desenvolvimento de produtos “limpos”. Os efeitos
quase catastróficos do aquecimento global destoam do relativo baixo
custo para a prevenção. O Estudo Stern estima serem necessários apenas
US$ 670 bilhões (1% do PIB mundial) para reverter o quadro.
Uma fonte do governo Blair confirmou à reportagem que todos os
países serão afetados pelas mudanças climáticas, mas as nações mais
pobres sofrerão de modo intenso e prematuro. Mesmo assim, ela considera
o relatório “essencialmente” otimista. “Ainda há tempo de evitar os
piores impactos, se agirmos agora e internacionalmente”, afirma.
“Governos, empresas e indivíduos precisam trabalhar juntos para
responder ao desafio, mas a tarefa é urgente. Atrasar a ação, por uma
ou duas décadas, nos levará a um território perigoso”, acrescenta. O
Reino Unido e os Estados Unidos acreditam que será necessário reduzir
em até 80% as emissões de poluentes até 2050.
As conclusões do estudo assombraram entidades ambientalistas. O
Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) considera o texto um indício
da urgência para que atitudes contra o aquecimento sejam tomadas
durante a 12ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP12) — entre os
próximos dias 6 e 17, em Nairóbi (Quênia). “Os países em
desenvolvimento são os mais afetados economicamente pelas mudanças
climáticas. Nossas possibilidades de investimento para nos adaptarmos a
essas transformações são menores que as das nações desenvolvidas”, diz
Karen Suassuna, técnica em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.
PROVÁVEIS SOLUÇÕES
Propostas do governo britânico para reduzir os efeitos da mudança climática a longo prazo
Diminuir as emissões de gases estufa na Europa em 60% até 2050
Até 2010, ter 5% de todos os carros do Reino Unido abastecidos com biocombustíveis
Criar uma autoridade ambiental independente
Estabelecer laços comerciais com Brasil, Papua Nova Guiné e Costa Rica, de modo a assegurar o reflorestamento sustentável
Trabalhar com a China em tecnologias limpas de carvão
Brasil tem importância
O governo brasileiro aproveitará a 12ª
Conferência das Partes sobre o Clima para apresentar uma proposta de
reduções compensadas de emissões de gases estufa provenientes do
desmatamento. Para o britânico Cameron Hepburn, co-autor do Estudo
Stern, o país é um ator importante na diminuição dos efeitos da mudança
climática. “O Brasil tem a tarefa significativa de manter as florestas
e pode contribuir bastante com os esforços globais”, diz. “Seria justo
que o Ocidente ajudasse o Brasil no processo. O país pode exercer
liderança, com uma política antidesmatamento.”
Hepburn explica que os transportes terrestres e aéreos são
responsáveis por 14% das emissões globais de poluentes. “Para
reduzi-las, precisamos viajar menos e substituir os combustíveis
fósseis. O Brasil também pode se tornar líder, ao aumentar o número
proporcional de veículos movidos a biocombustível.”
Segundo o Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de
Minas e Energia (MME), o Brasil é o maior exportador mundial de álcool
— em 2006, serão vendidos 3 bilhões de litros. O país não vende
biodiesel para outras nações. “O mercado internacional é incipiente e
tem grande potencial”, afirmou uma fonte do MME. (RC)
Cristiano Hickel (*)
Existe
um assunto muito em voga atualmente, é o aquecimento global as mudanças
climáticas e suas implicações, explorado pela mídia de forma
sensacionalista, ou não, é um tema tão antigo quanto a Declaração de
Estocolmo.
Embora tantos alertas, há tanto tempo, a humanidade
passou a preocupar-se com as catástrofes eminentes somente agora,
sentindo as mudanças na pele. Mesmo assim, com relação às nossas
atitudes, ainda vivemos numa inércia incompreensível, como se
estivéssemos aguardando o momento derradeiro em que a casa virá abaixo.
Nossos padrões de consumo (essa é a inércia) são ditados por
interesses econômicos que ainda não perceberam mudança alguma no clima,
e nem importa muito, afinal, seus valores colocam as pessoas abaixo do
papel (dinheiro). Um exemplo e símbolo desse comportamento são os
automóveis e toda cultura que se formou em torno deles. Nosso convívio
social pelas ruas da cidade está resumido ao isolamento dentro de um
casulo de metal, com rádio sintonizado de acordo com nosso estado de
espírito, telefone celular ao ouvido - e ai de quem atravessar o
caminho.
Congestionamentos? "Encare-os com superioridade",
dizia o anúncio de uma dessas camionetes enormes. "Mais do que espaço
interno, uma área vip", em anúncio de outro carro de luxo. Viva a
natureza comprando carros "Eco..." ou robustos 4x4 fora-de-estrada,
mesmo tendo eles um maior consumo de combustível, ocupando mais espaço
e impactando trilhas naturais - explícito nos próprios comerciais de
TV. Ainda, dizem alguns psicólogos, que a teoria do "sou o que possuo"
explica a falsa relação entre a potência do motor e o desempenho sexual
do seu motorista.
Essa cegueira coletiva interfere diretamente
no efeito estufa, em função da queima de combustíveis fósseis.
Atualmente existem montadoras de automóveis investindo em florestas
plantadas, com o intuito de seqüestrar carbono da atmosfera e, assim,
justificar a venda de automóveis "de consciência limpa". Ou, tecnologia
flex, como se pudéssemos abastecer todos os tanques com álcool (dito
renovável).
Mas isso não é tudo. Qual a tecnologia que
solucionará o problema do espaço urbano? E das diversas enfermidades
associadas à poluição e ruídos? E as mais de 30 mil mortes e 320 mil
feridos (desses, 120 mil adquirem uma deficiência permanente) em
acidentes de trânsito por ano no Brasil, o que representa um custo de
mais de R$ 10 bi para União?
Está na hora de colocarmos o pé
para fora do carro. Pisar no chão. Caminhar. Andar de bicicleta. Ir de
ônibus. Redescobrir nossa cidade, seus habitantes e o seu patrimônio. O
automóvel não precisa ser abolido, mas sua utilização racional se faz
necessária, e urgente. A era do carro como sinônimo de "status" acabou,
agora vemos essa máquina como símbolo de uma ganância irracional do
homem.
Para que o preconceito do motorista brasileiro àqueles
que não andam de carro se torne mera falta de informação, comunico que
Paris deseja se tornar uma cidade tranqüila, sem congestionamentos, sem
poluição, sem barulho. Ruas foram reformadas criando espaços exclusivos
e maiores para pedestres, bicicletas e ônibus. Muitos bairros,
principalmente os que servem de entrada da periferia para Paris,
tiveram ruas interditadas, vias transformadas em praças ou calçadas e a
velocidade limitada a 30 km/h.
Mas não apenas Paris anda na
vanguarda da era da humanização das cidades. Nessa lista temos Londres,
Almada, Dinamarca, Bogotá, e muitas outras. Essa é a tendência mundial,
mesmo contra a vontade de certos grupos econômicos - quem levará a pior
nessa luta são aqueles sem convicção de seus valores humanos.
Trocar
o carro por transporte público? Nem pensar! Ir de bicicleta? Loucura!
Então tome uma atitude, nem que seja a mínima de respeitar pedestres e
ciclistas, e fique com vergonha na cara. Da forma como está hoje, os
automóveis representam grave problema de saúde pública local, e
perigoso deturpador ambiental global. Quem paga essa conta somos todos
nós.
* É membro da ONG Transporte Ativo - www.ta.org.br - que
recebeu o Prêmio ANTP-Abradibi de Boas Práticas Urbanas e de Estímulo
ao Uso da Bicicleta 2005, coordenado pelo GT de Bicicleta da ANTP e
pela Associação Brasileira dos Fabricantes, Distribuidores e
Importadores de Peças e Acessórios (Abradibi). A ONG também integra o
Fórum Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta.
Fonte: Ambiente Brasil
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