Bicicletai!
Antonio Prata
Um
dias desses, evidentemente, tudo há de dar certo, os automóveis se
extinguirão e a superfície da Terra será povoada apenas por bicicletas.
Alguns carros, ônibus e caminhões serão expostos nos museus, feito
mamutes, guilhotinas e outros monstros findos, para divertir a
criançada e alertar os adultos: que o horror jamais se repita. Sobre
selins acolchoados, seremos felizes para sempre.
É inegável a
simpatia das bicicletas. Máquina desengonçada: se parada,
destrambelha-se como um albatroz em terra, mas ao impulso dos pedais,
projeta-se como uma flecha, esguia, impoluta e silenciosa. Bicicletas,
ninguém pode negar, são irmãs dos guarda-chuvas, primas das girafas e
parentes distantes dos abacaxis (não me peça para explicar, foi uma
idéia que tive agora).
Durante todo o século XX, muitos
artistas aproveitaram-se de seus encantos. É pedalando que vemos quase
todo o tempo monsieur Hulot, personagem do filme 'Meu Tio', utopia
lírica de Jacques Tati. Marcel Duchamp, depois de haver exposto um
mictório no museu, enfiou uma roda de bicicleta num banco de madeira e
deixou as velhas noções sobre arte de pernas pro ar.
É
impensável um facínora de bicicleta, inconcebível um ditador pedalando.
As "máquinas da paz", como as chamou Vinícius de Moraes, em sua 'Balada
das Meninas de Bicicleta', são muito mais afeitas aos suaves cuidados
das moças: "Bicicletai, meninada!/Aos ventos do Arpoador/Solta a
flâmula agitada/Das cabeleiras em flor".
As bicicletas são um
indício de civilização. Recomendadas por ecologistas, urbanistas,
cardiologistas e artistas, têm logo de entrar na agenda política. Ainda
não vi nenhum candidato expor, no horário eleitoral, seu projeto
nacional de bicicletização. Se aparecer algum, ganhará de imediato meu
apoio.
Se Deus voltasse à Terra e dissesse "me mostrem aí o que
vocês fizeram", teríamos de levá-lo imediatamente a Amsterdã, para um
passeio ciclístico, em torno daqueles belíssimos canais. Ou então ao
Rio de Janeiro. Pegaríamos Deus no Santos Dumont (vindo do céu, é de se
supor que chegará de avião) e O colocaríamos na garupa. Cruzaríamos
todo o Aterro, pedalando sem pressa, sob o sol ameno das quatro e meia
da tarde. Passaríamos pela estátua de Drummond em Copacabana, veríamos
as garotas saírem do mar em Ipanema e terminaríamos o passeio no
Leblon, com um mergulho no mar e um suco de melancia, no exato momento
de o sol se pôr. Se Deus tiver um pingo de sensibilidade, estaremos
todos salvos.
Antonio Prata é escritor. Email: aprata@estado.com.br