Blog EntryCiclistas pedem socorroNov 28, '06 11:29 AM
by Sergio for everyone
Ciclistas pedem socorro

A média de mortes registradas de janeiro a setembro de 2006 já supera os índices de todo o ano passado. Para evitar mais tragédias e garantir segurança de quem pedala, MP forma grupo especial

Marcela Duarte e Guilherme Goulart
Da equipe do Correio

Carlos Vieira/CB
Tiago não gosta de desobedecer as leis de trânsito, mas prefere fazê-lo a cair em bocas-de-lobo sem tampas
 
A insegurança nas vias do Distrito Federal obrigou o ciclista Tiago Rizzotto dos Santos, 21 anos, a ferir as leis de trânsito. Ele prefere andar na contramão dos veículos a arriscar a vida na avenida L3 Norte no trajeto entre a Universidade de Brasília (UnB) e a SQN 215. A dificuldade do estudante de psicologia está na disputa de espaço com os carros. Se andar no sentido correto, ele esbarra nos desníveis impostos pelas bocas-de-lobo. “É um perigo. Ou perco o equilíbrio da bicicleta ao avançar sobre os buracos ou invado a pista e corro o risco de ser atingido. O jeito é ir na contramão”, admitiu.

O medo de Tiago é compartilhado por cerca de 400 mil pessoas que dependem da bicicleta para trabalhar, estudar ou se divertir no Distrito Federal. Quem pedala sabe que, depois do pedestre, é o personagem mais frágil do trânsito. Dados do Departamento de Trânsito do DF (Detran) revelam que 44 ciclistas perderam a vida até setembro deste ano (confira números). A média é de quase cinco mortes por mês — no ano passado, o índice ficou em 4,2 (51 mortes). As tragédias levaram o Ministério Público do DF a formar um grupo especial para analisar o problema e cobrar providências das autoridades locais.

O anúncio foi feito ontem, durante a primeira audiência pública realizada pelo MPDF para debater a insegurança no trânsito para os ciclistas. Representantes da comunidade, de órgãos do governo e especialistas discutiram o tema com a Comissão de Segurança dos Ciclistas (Co-Ciclista). O grupo, formado em setembro deste ano, conta com sete procuradores e um perito do Instituto de Criminalística da Polícia Civil. A comissão é permanente. E trabalha para garantir a implantação de ciclovias e ciclofaixas, investigar a aplicação do dinheiro arrecadado com as multas e exigir do governo local investimento em campanhas educativas.

A convite da Co-Ciclista, fizeram parte da discussão o presidente da organização não-governamental Rodas da Paz, Leandro Salim, o especialista em trânsito e professor da UnB, Paulo César Marques, o perito criminal Marcos Henrique dos Santos, o chefe da Divisão de Educação do Detran, Marcelo Granja e o major do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar, Fábio Pizetta. Na platéia, além de ciclistas e motoristas, familiares de vítimas também ouviram atentos as sugestões. A maioria cobrou o cumprimento das leis de trânsito, instalação de equipamentos de segurança e respeito ao ciclista (leia quadro).

“É preciso modificar vários paradigmas. Se continuarmos assim, viveremos no caos. É um trabalho longo, mas demos o primeiro passo”, avaliou a procuradora distrital dos Direitos do Cidadão Ruth Kicis, que preside a Co-Ciclista. Segundo ela, a comissão pedirá ao governo, de imediato, a colocação de telas de proteção nas bocas-de-lobo e esclarecimentos sobre a falta de equipamentos de segurança para quem pedala em pistas recém-inauguradas, como a L3 e a L4 Norte e a via de ligação entre a Estrada Parque Taguatinga-Guará (EPTG) e a Estrutural.

Mais respeito
Maria Elisabete Davison, 57 anos, acompanhou atenta a audiência pública. Ela perdeu o filho, Pedro, 25 anos, no último dia 19 de agosto. O ciclista morreu depois de ser atingido por um Marea, na altura da 213 Sul. Três meses após a tragédia, Maria Elisabeth fez questão de participar das quatro horas de reunião. “Como mãe de uma vítima, fiz questão de estar presente. Acredito que agora algo pode mudar”, avaliou.

Já o presidente da Rodas da Paz, Leandro Salim, entende que os números de mortes cairão caso o MP consiga exigir o respeito às leis de trânsito. Para ele, não há necessidade, por exemplo, de instituir a emissão de carteiras de habilitação para ciclistas.

“Bicicletas e veículos podem ter uma relação pacífica, se as normas forem colocadas em prática. Também é preciso um projeto de educação para quem pedala, independente se ele pedala para o trabalho ou lazer”, comentou. Dos 400 mil ciclistas brasilienses, 5 mil integram grupos organizados voltados para o exercício físico, segundo a ONG. O restante usa a bicicleta como meio de transporte.


Fatalidade

51 PESSOAS
em bicicletas morreram no DF no ano passado

44 MORTOS
foram registradas até setembro de 2006 nas vias locais

400 MIL
brasilienses andam de bicicleta, segundo estimativas de ONG


Para melhorar

O que os ciclistas querem
  • Cumprimento da Lei 3639 de 2005, que prevê a construção de ciclovias nas novas pistas do Distrito Federal
  • Instalação de bocas-de-lobo seguras nas vias do DF
  • Fiscalização da aplicação da verba arrecada com multas pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran)

    Qual a posição do MPDF
  • Os promotores cobrarão, nos próximos dias, explicações dos representantes do governo sobre a falta de ciclovias nas avenidas L3 e L4 Norte, recentemente duplicadas
  • O MPDF requisitará que as bocas-de-lobo sejam tampadas, a fim de evitar acidentes com pedestres e ciclistas
  • O Código de Trânsito Brasileiro prevê a aplicação do dinheiro arrecadado com multas em educação, fiscalização e sinalização de trânsito. A Co-Ciclista, comissão criada em setembro pelo MPDF, tem investigado o uso dessa verba.


  • À espera das ciclovias

    Um dos temas mais discutidos no encontro no MPDF foi a construção de faixas exclusivas para os ciclistas. Os participantes reclamaram, especialmente, da demora do governo em começar as obras de 15 microrredes. Os projetos, aprovados pela Secretaria de Obras do Distrito Federal, beneficiarão 13 regiões administrativas com 153km de asfalto. Mas apenas uma delas, a de ligação entre o Paranoá e o Itapoã, começou neste ano. O trecho da invasão está pronto. O restante, parado. Não há previsão orçamentária em 2007 para a conclusão.

    A secretária-adjunta de Obras, Fátima Có, explicou que há R$ 9 milhões reservados às ciclovias. “A verba servirá para 80km, mas só em 2007”, afirmou. Enquanto isso, os ciclistas das duas cidades se sentem seguros apenas na metade do caminho. “O jeito é sair do Itapoã e, a partir do balão, voltar para a pista principal. É um perigo, tem caminhão demais”, contou o cabeleireiro Salvador da Luz de Carvalho, 21. Ele usa a bicicleta todos os dias para economizar R$ 2 em passagens de vans.

    “Já que não tem faixas exclusivas para as bicicletas, por que não se diminui a velocidade das vias? O Eixão, por exemplo, poderia oferecer maior segurança se a velocidade fosse reduzida para 60km/h”, defendeu o professor Paulo César Marques, especialista em trânsito da Universidade de Brasília. (GG e MD)


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    Bicicleta na Via
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