Ciclistas pedem
socorro
A
média de mortes registradas de janeiro a setembro de 2006 já supera os
índices de todo o ano passado. Para evitar mais tragédias e garantir
segurança de quem pedala, MP forma grupo especial
Marcela Duarte e Guilherme Goulart
Da equipe do Correio
| Carlos Vieira/CB |
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Tiago não gosta de desobedecer as leis de trânsito, mas prefere fazê-lo a cair em bocas-de-lobo sem tampas
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A
insegurança nas vias do Distrito Federal obrigou o ciclista Tiago
Rizzotto dos Santos, 21 anos, a ferir as leis de trânsito. Ele prefere
andar na contramão dos veículos a arriscar a vida na avenida L3 Norte
no trajeto entre a Universidade de Brasília (UnB) e a SQN 215. A
dificuldade do estudante de psicologia está na disputa de espaço com os
carros. Se andar no sentido correto, ele esbarra nos desníveis impostos
pelas bocas-de-lobo. “É um perigo. Ou perco o equilíbrio da bicicleta
ao avançar sobre os buracos ou invado a pista e corro o risco de ser
atingido. O jeito é ir na contramão”, admitiu.
O medo de Tiago é compartilhado por cerca de 400 mil pessoas que
dependem da bicicleta para trabalhar, estudar ou se divertir no
Distrito Federal. Quem pedala sabe que, depois do pedestre, é o
personagem mais frágil do trânsito. Dados do Departamento de Trânsito
do DF (Detran) revelam que 44 ciclistas perderam a vida até setembro
deste ano (confira números). A média é de quase cinco mortes por mês —
no ano passado, o índice ficou em 4,2 (51 mortes). As tragédias levaram
o Ministério Público do DF a formar um grupo especial para analisar o
problema e cobrar providências das autoridades locais.
O anúncio foi feito ontem, durante a primeira audiência pública
realizada pelo MPDF para debater a insegurança no trânsito para os
ciclistas. Representantes da comunidade, de órgãos do governo e
especialistas discutiram o tema com a Comissão de Segurança dos
Ciclistas (Co-Ciclista). O grupo, formado em setembro deste ano, conta
com sete procuradores e um perito do Instituto de Criminalística da
Polícia Civil. A comissão é permanente. E trabalha para garantir a
implantação de ciclovias e ciclofaixas, investigar a aplicação do
dinheiro arrecadado com as multas e exigir do governo local
investimento em campanhas educativas.
A convite da Co-Ciclista, fizeram parte da discussão o presidente
da organização não-governamental Rodas da Paz, Leandro Salim, o
especialista em trânsito e professor da UnB, Paulo César Marques, o
perito criminal Marcos Henrique dos Santos, o chefe da Divisão de
Educação do Detran, Marcelo Granja e o major do Batalhão de Trânsito da
Polícia Militar, Fábio Pizetta. Na platéia, além de ciclistas e
motoristas, familiares de vítimas também ouviram atentos as sugestões.
A maioria cobrou o cumprimento das leis de trânsito, instalação de
equipamentos de segurança e respeito ao ciclista (leia quadro).
“É preciso modificar vários paradigmas. Se continuarmos assim,
viveremos no caos. É um trabalho longo, mas demos o primeiro passo”,
avaliou a procuradora distrital dos Direitos do Cidadão Ruth Kicis, que
preside a Co-Ciclista. Segundo ela, a comissão pedirá ao governo, de
imediato, a colocação de telas de proteção nas bocas-de-lobo e
esclarecimentos sobre a falta de equipamentos de segurança para quem
pedala em pistas recém-inauguradas, como a L3 e a L4 Norte e a via de
ligação entre a Estrada Parque Taguatinga-Guará (EPTG) e a Estrutural.
Mais respeito
Maria Elisabete Davison, 57 anos, acompanhou atenta a audiência
pública. Ela perdeu o filho, Pedro, 25 anos, no último dia 19 de
agosto. O ciclista morreu depois de ser atingido por um Marea, na
altura da 213 Sul. Três meses após a tragédia, Maria Elisabeth fez
questão de participar das quatro horas de reunião. “Como mãe de uma
vítima, fiz questão de estar presente. Acredito que agora algo pode
mudar”, avaliou.
Já o presidente da Rodas da Paz, Leandro Salim, entende que os
números de mortes cairão caso o MP consiga exigir o respeito às leis de
trânsito. Para ele, não há necessidade, por exemplo, de instituir a
emissão de carteiras de habilitação para ciclistas.
“Bicicletas e veículos podem ter uma relação pacífica, se as normas
forem colocadas em prática. Também é preciso um projeto de educação
para quem pedala, independente se ele pedala para o trabalho ou lazer”,
comentou. Dos 400 mil ciclistas brasilienses, 5 mil integram grupos
organizados voltados para o exercício físico, segundo a ONG. O restante
usa a bicicleta como meio de transporte.
Fatalidade
51 PESSOAS
em bicicletas morreram no DF no ano passado
44 MORTOS
foram registradas até setembro de 2006 nas vias locais
400 MIL
brasilienses andam de bicicleta, segundo estimativas de ONG
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Para melhorar
O que os ciclistas querem
Cumprimento da Lei 3639 de 2005, que prevê a construção de ciclovias nas novas pistas do Distrito Federal
Instalação de bocas-de-lobo seguras nas vias do DF
Fiscalização da aplicação da verba arrecada com multas pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran)
Qual a posição do MPDF
Os promotores cobrarão, nos próximos dias, explicações
dos representantes do governo sobre a falta de ciclovias nas avenidas
L3 e L4 Norte, recentemente duplicadas
O MPDF requisitará que as bocas-de-lobo sejam tampadas, a fim de evitar acidentes com pedestres e ciclistas
O Código de Trânsito Brasileiro prevê a aplicação do
dinheiro arrecadado com multas em educação, fiscalização e sinalização
de trânsito. A Co-Ciclista, comissão criada em setembro pelo MPDF, tem
investigado o uso dessa verba.
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À espera
das ciclovias
Um dos temas mais discutidos no encontro no
MPDF foi a construção de faixas exclusivas para os ciclistas. Os
participantes reclamaram, especialmente, da demora do governo em
começar as obras de 15 microrredes. Os projetos, aprovados pela
Secretaria de Obras do Distrito Federal, beneficiarão 13 regiões
administrativas com 153km de asfalto. Mas apenas uma delas, a de
ligação entre o Paranoá e o Itapoã, começou neste ano. O trecho da
invasão está pronto. O restante, parado. Não há previsão orçamentária
em 2007 para a conclusão.
A secretária-adjunta de Obras, Fátima Có, explicou que há R$ 9
milhões reservados às ciclovias. “A verba servirá para 80km, mas só em
2007”, afirmou. Enquanto isso, os ciclistas das duas cidades se sentem
seguros apenas na metade do caminho. “O jeito é sair do Itapoã e, a
partir do balão, voltar para a pista principal. É um perigo, tem
caminhão demais”, contou o cabeleireiro Salvador da Luz de Carvalho,
21. Ele usa a bicicleta todos os dias para economizar R$ 2 em passagens
de vans.
“Já que não tem faixas exclusivas para as bicicletas, por que não
se diminui a velocidade das vias? O Eixão, por exemplo, poderia
oferecer maior segurança se a velocidade fosse reduzida para 60km/h”,
defendeu o professor Paulo César Marques, especialista em trânsito da
Universidade de Brasília. (GG e MD)
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