Blog EntryO preço do descasoOct 31, '06 7:25 AM
by Sergio for everyone
AQUECIMENTO GLOBAL
O preço do descaso

Relatório produzido para o governo britânico conclui que efeitos das mudanças climáticas podem consumir 20% do PIB mundial. Nações mais pobres sofrerão de modo mais intenso e prematuro

Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio

O mais completo relatório sobre aquecimento global já preparado no Reino Unido traz conclusões alarmantes: o custo anual dos efeitos da mudança climática não controlada pode chegar em 2050 a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, estimado em US$ 44,3 trilhões. O atual nível de emissão de gases que provocam o efeito estufa equivale a 430 partes por milhão (ppm) de gás carbônico — durante a Revolução Industrial (1780-1880), esse índice era de 280 ppm. Nos últimos 120 anos, a alta concentração de poluentes no ar provocou um aumento de meio grau centígrado na temperatura média do planeta.

Encomendadas pelo premiê britânico, Tony Blair, e assinadas por Nicholas Stern, chefe do Serviço Econômico, as 700 páginas do Estudo Stern sobre a Economia da Mudança Climática alertam ainda que há 77% de chances de a temperatura global média sofrer um acréscimo de dois graus Celsius em meio século. Numa previsão ainda mais catastrófica, a Terra poderia aquecer cinco graus nas próximas décadas, levando a uma mudança radical na geografia física do mundo (veja o gráfico nesta página). Como conseqüência, a economia mundial encolheria em um quinto, e a humanidade sofreria os mesmos efeitos da Grande Depressão de 1930 — quando a quebra da Bolsa de Valores de Nova York resultou numa recessão econômica que golpeou principalmente as grandes potências.

O documento entregue a Blair prevê ainda que a concentração de gases estufa na atmosfera deve atingir, daqui a 44 anos, o dobro dos níveis pré-industriais (550ppm). Neste ritmo de aquecimento global, secas e inundações farão com que 200 milhões de pessoas se tornem refugiadas neste século. A América Latina seria uma das regiões mais rapidamente afetadas pelas variações do clima, por sua economia depender de recursos naturais.


Realismo
Em entrevista por telefone ao Correio, o britânico Cameron Hepburn — co-autor do estudo e economista especializado em política climática — afirmou que o relatório é “bastante realista”. “Existe um perigo que pode ser devastador”, revela. Segundo ele, o documento trata o problema do ponto de vista econômico e propõe um gerenciamento de riscos. “O texto aborda a necessidade de se impor taxas sobre o preço da emissão de carbono na atmosfera ou de se ampliar o comércio de carbono na Europa.”

Os países signatários do Protocolo de Kyoto instituíram um mercado em que nações com baixos índices de emissões podem vender cotas aos países onde a poluição está acima da média. O relatório britânico defende mais investimentos em tecnologias renováveis e novas legislações para o desenvolvimento de produtos “limpos”. Os efeitos quase catastróficos do aquecimento global destoam do relativo baixo custo para a prevenção. O Estudo Stern estima serem necessários apenas US$ 670 bilhões (1% do PIB mundial) para reverter o quadro.

Uma fonte do governo Blair confirmou à reportagem que todos os países serão afetados pelas mudanças climáticas, mas as nações mais pobres sofrerão de modo intenso e prematuro. Mesmo assim, ela considera o relatório “essencialmente” otimista. “Ainda há tempo de evitar os piores impactos, se agirmos agora e internacionalmente”, afirma. “Governos, empresas e indivíduos precisam trabalhar juntos para responder ao desafio, mas a tarefa é urgente. Atrasar a ação, por uma ou duas décadas, nos levará a um território perigoso”, acrescenta. O Reino Unido e os Estados Unidos acreditam que será necessário reduzir em até 80% as emissões de poluentes até 2050.

As conclusões do estudo assombraram entidades ambientalistas. O Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) considera o texto um indício da urgência para que atitudes contra o aquecimento sejam tomadas durante a 12ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP12) — entre os próximos dias 6 e 17, em Nairóbi (Quênia). “Os países em desenvolvimento são os mais afetados economicamente pelas mudanças climáticas. Nossas possibilidades de investimento para nos adaptarmos a essas transformações são menores que as das nações desenvolvidas”, diz Karen Suassuna, técnica em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.


PROVÁVEIS SOLUÇÕES

Propostas do governo britânico para reduzir os efeitos da mudança climática a longo prazo

  • Diminuir as emissões de gases estufa na Europa em 60% até 2050
  • Até 2010, ter 5% de todos os carros do Reino Unido abastecidos com biocombustíveis
  • Criar uma autoridade ambiental independente
  • Estabelecer laços comerciais com Brasil, Papua Nova Guiné e Costa Rica, de modo a assegurar o reflorestamento sustentável
  • Trabalhar com a China em tecnologias limpas de carvão



  • Brasil tem importância

    O governo brasileiro aproveitará a 12ª Conferência das Partes sobre o Clima para apresentar uma proposta de reduções compensadas de emissões de gases estufa provenientes do desmatamento. Para o britânico Cameron Hepburn, co-autor do Estudo Stern, o país é um ator importante na diminuição dos efeitos da mudança climática. “O Brasil tem a tarefa significativa de manter as florestas e pode contribuir bastante com os esforços globais”, diz. “Seria justo que o Ocidente ajudasse o Brasil no processo. O país pode exercer liderança, com uma política antidesmatamento.”

    Hepburn explica que os transportes terrestres e aéreos são responsáveis por 14% das emissões globais de poluentes. “Para reduzi-las, precisamos viajar menos e substituir os combustíveis fósseis. O Brasil também pode se tornar líder, ao aumentar o número proporcional de veículos movidos a biocombustível.”

    Segundo o Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil é o maior exportador mundial de álcool — em 2006, serão vendidos 3 bilhões de litros. O país não vende biodiesel para outras nações. “O mercado internacional é incipiente e tem grande potencial”, afirmou uma fonte do MME. (RC)



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