AQUECIMENTO GLOBAL
O preço do descaso
Relatório
produzido para o governo britânico conclui que efeitos das mudanças
climáticas podem consumir 20% do PIB mundial. Nações mais pobres
sofrerão de modo mais intenso e prematuro
Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio
O mais completo relatório sobre aquecimento global já preparado no
Reino Unido traz conclusões alarmantes: o custo anual dos efeitos da
mudança climática não controlada pode chegar em 2050 a 20% do Produto
Interno Bruto (PIB) mundial, estimado em US$ 44,3 trilhões. O atual
nível de emissão de gases que provocam o efeito estufa equivale a 430
partes por milhão (ppm) de gás carbônico — durante a Revolução
Industrial (1780-1880), esse índice era de 280 ppm. Nos últimos 120
anos, a alta concentração de poluentes no ar provocou um aumento de
meio grau centígrado na temperatura média do planeta.
Encomendadas pelo premiê britânico, Tony Blair, e assinadas por
Nicholas Stern, chefe do Serviço Econômico, as 700 páginas do Estudo
Stern sobre a Economia da Mudança Climática alertam ainda que há 77% de
chances de a temperatura global média sofrer um acréscimo de dois graus
Celsius em meio século. Numa previsão ainda mais catastrófica, a Terra
poderia aquecer cinco graus nas próximas décadas, levando a uma mudança
radical na geografia física do mundo (veja o gráfico nesta página).
Como conseqüência, a economia mundial encolheria em um quinto, e a
humanidade sofreria os mesmos efeitos da Grande Depressão de 1930 —
quando a quebra da Bolsa de Valores de Nova York resultou numa recessão
econômica que golpeou principalmente as grandes potências.
O documento entregue a Blair prevê ainda que a concentração de
gases estufa na atmosfera deve atingir, daqui a 44 anos, o dobro dos
níveis pré-industriais (550ppm). Neste ritmo de aquecimento global,
secas e inundações farão com que 200 milhões de pessoas se tornem
refugiadas neste século. A América Latina seria uma das regiões mais
rapidamente afetadas pelas variações do clima, por sua economia
depender de recursos naturais.
Realismo
Em entrevista por telefone ao Correio, o britânico Cameron Hepburn
— co-autor do estudo e economista especializado em política climática —
afirmou que o relatório é “bastante realista”. “Existe um perigo que
pode ser devastador”, revela. Segundo ele, o documento trata o problema
do ponto de vista econômico e propõe um gerenciamento de riscos. “O
texto aborda a necessidade de se impor taxas sobre o preço da emissão
de carbono na atmosfera ou de se ampliar o comércio de carbono na
Europa.”
Os países signatários do Protocolo de Kyoto instituíram um mercado
em que nações com baixos índices de emissões podem vender cotas aos
países onde a poluição está acima da média. O relatório britânico
defende mais investimentos em tecnologias renováveis e novas
legislações para o desenvolvimento de produtos “limpos”. Os efeitos
quase catastróficos do aquecimento global destoam do relativo baixo
custo para a prevenção. O Estudo Stern estima serem necessários apenas
US$ 670 bilhões (1% do PIB mundial) para reverter o quadro.
Uma fonte do governo Blair confirmou à reportagem que todos os
países serão afetados pelas mudanças climáticas, mas as nações mais
pobres sofrerão de modo intenso e prematuro. Mesmo assim, ela considera
o relatório “essencialmente” otimista. “Ainda há tempo de evitar os
piores impactos, se agirmos agora e internacionalmente”, afirma.
“Governos, empresas e indivíduos precisam trabalhar juntos para
responder ao desafio, mas a tarefa é urgente. Atrasar a ação, por uma
ou duas décadas, nos levará a um território perigoso”, acrescenta. O
Reino Unido e os Estados Unidos acreditam que será necessário reduzir
em até 80% as emissões de poluentes até 2050.
As conclusões do estudo assombraram entidades ambientalistas. O
Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) considera o texto um indício
da urgência para que atitudes contra o aquecimento sejam tomadas
durante a 12ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP12) — entre os
próximos dias 6 e 17, em Nairóbi (Quênia). “Os países em
desenvolvimento são os mais afetados economicamente pelas mudanças
climáticas. Nossas possibilidades de investimento para nos adaptarmos a
essas transformações são menores que as das nações desenvolvidas”, diz
Karen Suassuna, técnica em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.
PROVÁVEIS SOLUÇÕES
Propostas do governo britânico para reduzir os efeitos da mudança climática a longo prazo
Diminuir as emissões de gases estufa na Europa em 60% até 2050
Até 2010, ter 5% de todos os carros do Reino Unido abastecidos com biocombustíveis
Criar uma autoridade ambiental independente
Estabelecer laços comerciais com Brasil, Papua Nova Guiné e Costa Rica, de modo a assegurar o reflorestamento sustentável
Trabalhar com a China em tecnologias limpas de carvão
Brasil tem importância
O governo brasileiro aproveitará a 12ª
Conferência das Partes sobre o Clima para apresentar uma proposta de
reduções compensadas de emissões de gases estufa provenientes do
desmatamento. Para o britânico Cameron Hepburn, co-autor do Estudo
Stern, o país é um ator importante na diminuição dos efeitos da mudança
climática. “O Brasil tem a tarefa significativa de manter as florestas
e pode contribuir bastante com os esforços globais”, diz. “Seria justo
que o Ocidente ajudasse o Brasil no processo. O país pode exercer
liderança, com uma política antidesmatamento.”
Hepburn explica que os transportes terrestres e aéreos são
responsáveis por 14% das emissões globais de poluentes. “Para
reduzi-las, precisamos viajar menos e substituir os combustíveis
fósseis. O Brasil também pode se tornar líder, ao aumentar o número
proporcional de veículos movidos a biocombustível.”
Segundo o Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de
Minas e Energia (MME), o Brasil é o maior exportador mundial de álcool
— em 2006, serão vendidos 3 bilhões de litros. O país não vende
biodiesel para outras nações. “O mercado internacional é incipiente e
tem grande potencial”, afirmou uma fonte do MME. (RC)