Blog EntryPara quem ainda insiste no carro...Sep 18, '06 3:27 PM
by Sergio for everyone
É com este que eu vou

Para saber qual o transporte mais viável no centro de Brasília, o Correio promoveu um teste com um ciclista, um motorista de carro e um usuário de ônibus

Leandro Bisa, Carolina Caraballo e Adriana Bernardes
Da equipe do Correio




Marcos Vieira chegou primeiro que os outros: 15 minutos do Sudoeste à Esplanada

Iano Andrade/CB

Gustavo Teles gastou 20 minutos de casa ao trabalho. No caminho, congestionamento


Fernando Arruda perdeu 45 minutos do seu dia dentro de um microônibus Zebrinha

Diante das opções de transporte (ou da falta delas), o Correio promoveu um teste para avaliar as dificuldades que o brasiliense tem para transitar nas ruas de Brasília. Bicicleta, carro particular ou o sistema de transporte público: o que seria mais apropriado para percorrer 9 km no centro da capital federal no horário de pico, entre 7h30 e 8h30? O servidor público e atleta amador Marcos Vieira, 42 anos, o engenheiro civil Gustavo Teles da Costa, 25 anos, e o estudante de geografia da Universidade de Brasília (UnB), Fernando Arruda, 22 anos, aceitaram o convite para participar do teste. O ponto de partida foi a SQSW 303, Sudoeste, às 8h da última quinta-feira. A prova terminou na portaria do Ministério dos Transportes, depois que a bicicleta foi guardada e o carro, estacionado. O combinado era encontrarem-se na portaria do prédio. Vamos à prova:


É dada a largada. Em um minuto, o ciclista Marcos sai da quadra e entra na via na Avenida Comercial do Sudoeste. O engenheiro Gustavo dá arrancada em sua picape. Percorre apenas 10 m e pára em uma faixa de pedestre para dar passagem a uma mulher e a uma criança. O universitário Fernando caminha em direção à parada de ônibus. Vai tranqüilo. “Sei que vou chegar em último. Conheço bem o transporte público”, comenta o jovem.

O estudante leva quatro minutos até o ponto de ônibus. A caminhonete de Gustavo está bem à frente. “Por enquanto, o trânsito está fluindo”, avalia o engenheiro. Mal sabe ele que uma fila de carros o aguarda a menos de 1km, por causa de um balão. Havia veículos em todos os sentidos e, mais uma vez, o motorista tem que esperar. O ciclista aproveita para se distanciar ainda mais. O pior trecho do percurso está na saída do Sudoeste. Dezenas de carros esperam o semáforo ficar verde para entrarem no Eixo Monumental. A fila tem mais de 500m. A bicicleta avança sem problemas.

“Estou com sorte”
Passam cinco minutos e Fernando ainda espera no ponto. Passa uma van e depois um ônibus. Porém, nenhum vai para a Esplanada dos Ministérios. Após seis minutos, o estudante entra em um zebrinha. “Até que não demorou muito. Acho que estou com sorte”, acredita o jovem. Apesar de o microônibus estar quase lotado, ele consegue um lugar para se sentar.

A bicicleta, que segue na média de 33km/h, está próxima à Torre de TV. O trânsito está pesado nesse trecho, e é preciso cuidado. Como não há ciclofaixa, ônibus, vans e carros passam a poucos metros do ciclista. Nesse instante, a caminhonete de Gustavo ainda está na Avenida Comercial do Sudoeste. O sinal que controla a entrada de veículos no Eixo Monumento já abriu e fechou duas vezes. Após cinco minutos na retenção, o engenheiro finalmente entra em uma das principais vias da capital federal.

Enquanto isso, o universitário muda de idéia sobre estar com sorte. O zebrinha começa a dar voltas e Fernando fica impaciente. Olha o relógio, coça o queixo e respira fundo. O veículo entra em uma quadra interna do Setor de Indústrias Gráficas (SIG) e uma morena entra no veículo. A expressão do estudante muda imediatamente. É uma amiga. Ambos sorriem e se cumprimentam com três beijinhos. Ele repara no porta-CD’s nas mãos dela e puxa assunto. Passam a conversar sobre música, e a viagem fica mais agradável.

Bem à frente, a caminhonete segue rapidamente até a Rodoviária. Porém, o trânsito intenso faz o motorista perder mais tempo e o deixa irritado. Uma van de transporte alternativo, com o cobrador com metade do corpo para fora da janela, força passagem entre os carros, obrigando-os a frear. “Aqui tem muito ônibus e os motoristas de vans são terríveis”, reclama o engenheiro.

O primeiro e o último
Quinze minutos após a largada, a bicicleta chega ao Ministério dos Transportes. Marcos sequer está suado. Ele procura um bicicletário e lamenta não encontrar. Também não é permitido deixar o veículo na portaria do prédio. O jeito é acorrentá-la a um poste no estacionamento. “É um perigo. Aqui, um ladrão leva ela fácil”, afirma o ciclista.

Pouco depois, o carro chega ao ponto de encontro. Mas o trabalho não acabou, porque não há vagas para estacionar. Gustavo indigna-se com um carro que ocupa duas vagas. “Já é difícil parar por aqui. E ainda tem motorista folgado que não estaciona direito”, lamenta. Vinte e dois minutos após a saída, o motorista, finalmente, estaciona.

O universitário ainda está distante, no Setor Bancário Sul. O zebrinha ainda passa pelo Setor de Autarquias Sul antes de pegar o Eixo Monumental. “Pelo menos o ônibus está limpo e não tem pichação. Os que fazem a linha das cidades satélites são muito mais detonados”, observa. Passageiros ouvem a conversa e citam outras falhas do transporte público: atraso, superlotação e veículo que quebra no meio do caminho. Após 45 minutos, o estudante chega. Desembarca em um ponto em frente ao ministério, dá poucos passos e encontra o ciclista e o motorista. “Esse ônibus demora muito. Dá muita volta”, comenta.

Ao final, os três convidados comentam a corrida. “Não vim rápido, mas tenho habilidade no trânsito. Um iniciante demoraria dez minutos a mais, por causa do medo”, disse o ciclista. “Eu esperava que a bicicleta chegasse primeiro, mas não tanto, porque não havia grande congestionamento”, disse o motorista da picape. “Sempre soube que seria o último”, conformou-se o passageiro do ônibus.


PELOS DIREITOS DE QUEM PEDALA
A delicada situação dos ciclistas nas vias do DF finalmente chamou a atenção da Justiça. O Ministério Público do Distrito Federal (MPDF) anunciou na sexta-feira que vai trabalhar para garantir a segurança e os direitos de quem pedala nas pistas e criou a Comissão de Segurança dos Ciclistas (Co-ciclistas), integrado por uma procuradora e sete promotores. Só no primeiro semestre de 2006, 29 pessoas perderam a vida depois de serem atropeladas enquanto pedalavam. O cumprimento da Lei Distrital 3.639/2005, que prevê a construção de ciclovias, será exigido pelo MPDF. Segundo o MPDF, o Detran arrecada R$ 70 milhões por ano em multas e o dinheiro tem de ser aplicado em fiscalização, sinalização e educação, como o Código Brasileiro de Trânsito (CBT) determina. A procuradora Ruth Kicis já pediu ao Detran informações sobre como foram gastos os recursos adquiridos com multas em 2005. gastos.


As inviáveis quatro rodas

A frota do Distrito Federal cresce 5,5% ao ano. São 862 mil veículos — dois para cada cinco habitantes. E 77% são carros, que, geralmente, transitam com apenas uma pessoa. Bastam uma leve batida, uma obra viária de pequenas proporções ou uma manifestação e o trânsito fica infernal. “É preciso buscar alternativas. Nenhuma cidade do mundo suporta todos os seus moradores nas ruas em carros particulares. Ninguém sairia do lugar”, disse o professor de engenharia de tráfego da Universidade de Brasília (UnB), Paulo César Marques. Diante do problema, qual é a melhor maneira de se locomover na cidade?

Marques defende investimentos no sistema de transporte público e em meios de locomoção alternativos, como a bicicleta. “O carro é a prioridade em Brasília. Vias, campanhas educativas e equipamentos de fiscalização são voltados para esse tipo de transporte”, comentou. O sociólogo Victor Pavarino, do Centro de Formação de Recursos Humanos em Transporte da UnB (Ceftru), ressaltou que até andar a pé é difícil nas cidades do DF. “A velocidade das vias é alta e os serviços públicos e privados, centralizados. Faltam até calçadas. Se a pessoa não tiver carro, ela não vai”, afirmou.

Duas rodas
Estacionar na área central de Brasília tornou-se tarefa árdua. Segundo estudo do Departamento do Trânsito (Detran), existem 81 mil vagas no Plano Piloto. Mas o número de veículos que circula diariamente na região é quatro vezes maior. “O uso do transporte público e de bicicletas eliminaria a necessidade de se ampliar a quantidade de vagas”, explicou Pavarino.

De acordo com Paulo César Marques, a bicicleta percorre distâncias de até 15km em menos tempo que os veículos motorizados dentro das cidades. “É uma distância que qualquer pessoa pode percorrer sem sobrecarga de esforço. A bicicleta tem a flexibilidade de cortar caminho enquanto o carro fica parado em uma série de obstáculos”, declarou o especialista. Porém, ele reconhece ser perigoso andar sobre duas rodas. Nos seis primeiros meses deste ano, 29 ciclistas morreram atropelados. “Faltam ciclofaixas, ciclovias e educação por parte dos motoristas que não respeitam a bicicleta”, afirmou. E quase não há prédios públicos ou particulares que ofereçam garagens, bicicletários e vestiários.

O diretor-geral do Detran, Antônio Bomfim, concorda que a situação do trânsito é grave por causa do grande número de veículos. “Também sou a favor de usar a bicicleta como meio de transporte. Mas é muito perigoso. O risco é grande. É preciso construir todo um sistema de ciclovias. E a geometria viária do DF facilita isso.” Para Bomfim, estimular a utilização da bicicleta depende da articulação de um grande projeto entre diversos órgãos de governo, como as secretarias de Planejamento Urbano, de Obras e o Detran. “Sou a favor. É uma opção para o futuro. Acho que o próximo governo deve se articular e trabalhar nisso. Hoje, é perigoso. E não adianta fazer nada sem melhorar o sistema de transporte coletivo”, declarou.

Os usuários do transporte público correm menos riscos de morrer do que os ciclistas, mas sofrem com a péssima qualidade do serviço: veículos velhos e sujos, atrasos, falta de opção e inexistência de um serviço integrado. O secretário de Transportes, Mauro Cateb, reconhece os problemas. Porém, garante que um grande projeto, desenvolvido nos últimos quatro anos, mudará o transporte público do DF. Serão investidos US$ 246 milhões (equivalentes a R$ 524 milhões), dinheiro financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Cateb garante que a implantação do projeto começa em fevereiro do ano que vem. “O acordo está nos ajustes finais”, afirmou. A frota de ônibus será renovada e integrada ao metrô e às vans. As principais vias ganharão corredores exclusivos para os veículos coletivos e tudo será informatizado. O usuário poderá pagar uma passagem e usar mais de um sistema. “Esse projeto não tem mais como não acontecer”, afirmou o secretário. Ele estima, porém, que a implantação total do projeto, chamado Brasília Integrada, demore quatro anos. (LB)




Editor: Samanta Sallum // samanta.sallum@correioweb.com.br
Subeditores: Ana Paixão, Roberto Fonseca, Valéria Velasco
e-mail: cidades@correioweb.com.br
Tels. 3214-1180 • 3214-1181

rodrigov wrote on Sep 19, '06, edited on Sep 19, '06
muito interessante!
mas faltou uma moto como no teste no Rio.
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Bicicleta na Via
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