Blog EntryTroque o carro pela bicicletaFeb 15, '08 1:35 PM
by Sergio for everyone

Mais que um veículo de lazer, a magrela pode ser o meio de transporte que leva você o trabalho, à farmácia, ao cinema. Saiba o que tem sido feito no Brasil e no mundo para tornar isso possível e como você também pode pedalar por esse caminho

por Priscilla Santos

Se ao ler o título desta matéria você tascou logo um: No Brasil é impossível, ok, compreende-se seu ceticismo. Mas, de cara, aí vai uma informação que pode fazer você rever sua opinião: a bicicleta é o veículo individual mais usado no país. A conta é fácil: a magrela é o meio de transporte próprio mais popular nos pequenos centros urbanos (municípios com menos de 50 mil habitantes), que representam mais de 90% das cidades brasileiras (lembra a cena típica do trabalhador rural pedalando pela estrada?). Surpreendente mesmo. Quem sabe não vale a pena você seguir adiante e descobrir que é possível desmontar outros mitos e também reafi rmar verdades? É fato que aquilo que você vê pela janela do carro não é convidativo e pode fazê-lo desistir de ler esta matéria agora mesmo. O trânsito nas grandes cidades do país está um caos, como diz o chavão. Mas não seria justamente esse um bom motivo para você aposentar o carro? É o que muitas pessoas têm feito.

Em São Paulo, faça sol ou faça chuva, uma sexta-feira por mês, enquanto os carros mal se movem pelas ruas, ciclistas se encontram na altura do número 2440 da avenida Paulista. Dali, saem numa espécie de carreata mas, claro, de bicicleta para divulgar a bike como meio de transporte. Eles param o trânsito e chamam a atenção dos motoristas para essa opção de transporte menos poluente e, muitas vezes, mais rápida. Num engarrafamento na capital paulista, os automóveis andam de 5 a 8 quilômetros por hora, enquanto a bicicleta chega a 15. Volta e meia, o grupo, que não tem líder nem estatuto, pinta bicicletas no asfalto ou nos pontos de ônibus (como o da foto ao lado), sinalizando que a rua é também do ciclista, ou pendura bikes brancas, as chamadas ghost bikers, em pontos da cidade em que ocorreram acidentes fatais com ciclistas. Assim é a Bicicletada, versão brasileira de um movimento que surgiu em São Francisco, Califórnia: o Critical Mass, hoje em 300 países.

Diferentemente da Europa, onde os governos criaram espontaneamente espaços para ciclistas, em São Franscico a coisa teve de ser conquistada. O Brasil deve ir pelo mesmo caminho, já que tem aliado esse tipo de cicloativismo mais guerrilheiro, bem representado pela Bicicletada, ao diálogo com as autoridades. O importante é que essas duas partes são muito parceiras, diz José Lobo, da ONG carioca Transporte Ativo.

Mãos à obra

Em 2004, o Ministério das Cidades lançou o Programa Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta, que funciona como uma bússola para os municípios que pretendem ampliar o uso desse meio de transporte. Saímos de 99 para 276 municípios com algum tipo de via para bicicleta e saltamos de pouco mais de 600 para 2505 quilômetros de ciclovias, de 2003 para cá, diz o diretor de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, Renato Boareto. Comparado à Europa é pouco, claro. A Holanda tem um quinto do território do estado de Santa Catarina e 14 vezes mais infra-estrutura nesse campo que o Brasil. Mas o mais importante é o número de cidades que têm projetos, diz Renato.

Se o papo é metrópole, o Rio de Janeiro sai na frente. Além de ter mais ciclovias são 140 quilômetros construídos e 60 projetados , elas existem há mais de 15 anos, diz José Lobo. Lá, o número de ciclistas que fazem a viagem casa-trabalho diariamente quase quadruplicou entre 1994 e 2004. São Paulo também está pedalando. Em 2007, lançou uma lei que declara a criação do sistema cicloviário do município e prevê, por exemplo, a construção de ciclovias, ciclofaixas (faixas exclusivas para bicicletas na mesma pista dos automóveis) e estacionamentos para magrelas. Estão para ser entregues aos paulistanos os 12,5 quilômetros da ciclovia Radial Leste, que liga as estações de metrô Tatuapé e Corinthians-Itaquera, na zona leste. O projeto cicloviário do bairro Butantã, na zona oeste, também é animador. Serão 80 quilômetros a ser percorridos por bike, sendo 15 de ciclovias, facilitando o acesso à Universidade de São Paulo, sediada na região.

Mas não adianta ficarmos sentados esperando as obras terminarem (se é que na sua cidade há alguma), pois o mundo não acaba em ciclovia. Veja bem: o maior inimigo da bicicleta é o carro em alta velocidade. A ciclovia é uma boa opção para as avenidas em que a velocidade máxima permitida é superior a 60 quilômetros por hora. Ainda assim, não resolve de todo o problema: a cada dez acidentes com ciclistas, de oito a nove ocorrem nos cruzamentos. E é impossível construir uma ciclovia sem cruzamentos, como bem lembra o cicloativista Arturo Alcorta, da Escola de Bicicleta, de São Paulo.

A saída é mais óbvia do que parece: segurança no trânsito. Não dá para você pensar a cidade como se um dia todas as pessoas fossem ter automóvel. Esse é um equívoco presente em quase todos os planos de cidade e mobilidade urbana no Brasil. A cidade tem que ser pensada considerando o deslocamento do pedestre, dos ciclistas, da criança, do idoso, diz Renato Boareto. Essa é a idéia das ciclorredes, um emaranhado de caminhos preferenciais para as bicicletas, mas que também trazem mais conforto e segurança para todos que circulam por ela. Presente em cidades americanas como Berkeley e Portland e em vilarejos da Holanda, sua regra número 1 é: diminuir a velocidade máxima dos automóveis, o que pode ser feito tanto por meio de legislação quanto com o estreitamento das ruas, construção de minirrotatórias nas esquinas e elevação das faixas de pedestre para a altura da calçada, formando uma lombada, por exemplo. Essas medidas, que fazem com que o carro vá naturalmente mais devagar, fazem parte do conceito de traffic calming, ou moderação no trânsito, que surgiu nos anos 60, quando os habitantes da cidade de Delft, na Holanda, fizeram um movimento para que suas ruas voltassem a ser quintais cheios de vida.

Mas, se nossa realidade ainda não é essa, o que fazer? A seguir, algumas respostas para aquelas dúvidas cabeludas que impedem a maioria das pessoas do mundo de trocar o carro pela bicicleta.

É perigoso?

Quanto mais congestionado estiver o trânsito, mais seguro é. Nos horários de trânsito livre, nas avenidas das grandes cidades, sim, é perigoso, diz Eric Ferreira, coordenador de mobilidade urbana do Instituto de Energia e Meio Ambiente de São Paulo. Então, evite as avenidas a todo custo enquanto você não estiver seguro. E, mesmo quando se tornar um atleta, pense bem: é muito mais gostoso andar por ruas calmas e arborizadas.

O melhor lugar para começar a pedalar (depois que você treinar o equilíbrio dando voltas por um parque) são as ruas mais tranqüilas do seu bairro. Vá até a farmácia, o cinema, o correio mais próximo. Mesmo assim, aconselha Eric, tenha sempre uma postura defensiva. E coloque-se no seu devido lugar: a rua. Andar na calçada é falta de respeito com o pedestre. Não precisa bancar o folgadão no meio da faixa, mas também não se esprema no canto, sob o risco de se tornar invisível para os motoristas. Ocupe seu território, diz Giselle Xavier, coordenadora do grupo CicloBrasil da Universidade do Estado de Santa Catarina. Ciclista que mostra presença ganha mais respeito do motorista.

Vou respirar poluição?

Vai respirar mais poluição do que se andar de bicicleta no parque, sem dúvida, mas menos do que se estiver dentro do carro ou do ônibus, diz o coordenador do Laboratório de Poluição da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva, que percorre 25 quilômetros diários de bicicleta, seu principal meio de transporte há 36 anos. Em São Paulo, onde nos últimos dez anos a população aumentou 12% e a frota de carros cresceu 73%, quem está dentro de um veículo motorizado respira 30% mais poluição que o ciclista ou o pedestre. Isso porque ao ar livre a poluição se dissipa mais rapidamente. Paulo aponta mais três motivos para dar preferência à bike: você fica menos tempo no trânsito e, conseqüentemente, é ainda menos exposto à poluição, aumenta sua resistência aeróbica e ativa sua musculatura. E ainda contribui para reduzir a emissão de poluentes em sua cidade.

E o calor?

Sair mais cedo, voltar mais tarde e andar com calma são boas maneiras de evitar o suor. Um dia fui de metrô ao centro do Rio e cheguei mais suado do que quando vou pedalando devagarinho, pegando uma brisa, diz José Lobo, da ONG Transporte Ativo. Tem regiões que são planas e você nem sua, se passa perfume ainda chega com ele, diz o estudante de jornalismo Felipe Aragonez, que usa a bike para se deslocar por São Paulo. Se seu caminho não for assim tão cheio de retas, leve uma muda de roupa na mochila. Quem sabe no local onde você trabalha há um bom chuveiro? O tempo que você economizou no trânsito dá para tomar muitos banhos.

Além disso, você não precisa cruzar a cidade toda. A bicicleta é indicada para percursos de até 7 quilômetros, o que equivale a no máximo 30 minutos de viagem, a uma velocidade média de 15 km/h. Para ir mais longe, faça parte do trajeto de transporte coletivo. Um dos focos do poder público é a construção de bicicletários nas estações de trem, ônibus e metrô. Você também pode optar por uma bike dobrável, fácil de carregar. No mais, sem radicalismos. Se você botou na balança e viu que não vale a pena ir ao trabalho de bike, tudo bem. Não é porque você decidiu usar a magrela como meio de transporte que nunca mais vai entrar num carro. Use a bicicleta quando der, pois já será um belo passo ou uma boa pedalada.

AMSTERDÃ: meca das bikes

Não restam dúvidas: é esta a capital mundial das bicicletas. Cerca de 40% dos deslocamentos na cidade são feitos com as magrelas. Quase todos os moradores têm ao menos uma sempre das mais velhotas e básicas possíveis. Elas são usadas para ir à escola, ao trabalho, ao show. Lá, pedala-se de salto alto, segurando um guarda-chuva ou carregando bebês sem perder a elegância, jamais. Com 750 mil habitantes, a cidade tem 400 quilômetros de ciclovias. Foi lá, inclusive, que surgiram os primeiros movimentos pelas bicicletas comunitárias. Nos anos 60, um grupo de jovens pintou bikes de branco e as distribuiu pela cidade, para serem usadas e devolvidas por qualquer um, de graça. O problema é que as bikes iam e não voltavam mais. Resultado: a polícia confiscou tudo.

LONDRES: vale-bicicleta

Depois de passar a cobrar pedágio para os carros circularem no centro da cidade, o que aumentou o número de ciclistas na região, Londres lança o Cyclescheme: um programa de incentivo para que empresas comprem bicicletas com impostos reduzidos e as ofereçam a seus funcionários como um benefício. Uma espécie de valetransporte, porém em forma de bicicleta. Quem adere ao programa ganha um vaucher no valor de 1000 libras, cerca de 3500 reais, e vai até uma das lojas cadastradas para escolher sua bike. O veículo pertence à empresa, mas também pode ser usado pelo trabalhador nas horas livres. Se a pessoa sair do emprego, tem o direito de comprar a bike por um preço de mercado, digamos, justo.

PARIS: sobre duas rodas

Na Cidade-Luz, a cada 300 metros se topa com uma estação de bicicletas públicas (como a da foto). É pegar a magrela numa estação e largar em outra. Ao todo são cerca de 20 mil veículos alugados por preços camaradas: o passe anual sai por 29 euros, menos de 80 reais. O programa Velib, contração das palavras francesas vélo (bicicleta) e liberté (liberdade), é o maior que existe no gênero. Mas não o único, nem o primeiro. Copenhagem, na Dinamarca, tem um serviço parecido desde 1995. Cidades como Barcelona e Sevilha, na Espanha, Estocolmo, na Suécia, Helsinki, na Finlândia, Oslo, na Noruega, Viena, na Áustria, e Bruxelas, na Bélgica também oferecem a seus habitantes e turistas a liberdade de ir e vir de bicicleta.

BOGOTÁ: exemplo latino

Em menos de seis anos, a cidade ganhou mais de 300 quilômetros de ciclovias, as chamadas ciclorutas, equipadas com bicicletários. O uso das magrelas passou de 1,5% para 6,5% do total de viagens diárias na cidade. A população tomou tanto gosto pela coisa que o Dia Sem Meu Carro é realizado não só uma, mas duas vezes por ano. Das idéias mais inovadoras, vale citar a integração do transporte público com o estacionamento para bicicleta. Ao pagar a passagem de ônibus, o usuário recebe dois adesivos com o mesmo número. Um deles é colado na bicicleta, o outro fica de posse do usuário, que deve apresentá-lo na hora de retirar seu veículo nos bicicletários, instalados nos terminais de ônibus.

Fonte: Vida Simples


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